03/01/2010

Os Primeiros Frutos do Espírito


 Por Reverendo John Wesley

“Agora, pois, nada de condenação há para os que estão em Cristo Jesus,
os quais não andam segundo a carne; mas segundo o Espírito.”
(Romanos 8.l)
1. PELA expressão: “os que estão em Cristo Jesus”, S. Paulo quer evidentemente designar os que, na
realidade crêem em Cristo; os que, “justificados pela fé, têm paz com Deus mediante nosso Senhor Jesus
Cristo”. Os que assim crêem, não mais “andam segundo a carne”, não seguem os impulsos da natureza
corrompida, mas andam “segundo o Espírito”, sendo que o mesmo glorioso Espírito lhes dirige os
pensamentos, as palavras e as obras.


2. “Não há, pois, condenação para” esses. Não ha condenação da parte de Deus, porque o mesmo Deus os
justificou “livremente pela sua graça, mediante a redenção que há em Jesus”. Perdoou-lhes todas as
iniqüidades e cancelou todos os seus pecados. Não há para eles condenação interior, porque “receberam,
não o espírito do mundo, mas o Espírito que é de Deus, para que possam conhecer as coisas que
livremente lhes são dadas por Deus (1Co 11.12), cujo “Espírito dá testemunho com seu espírito, de que
são filhos de Deus”. A isto se junta o testemunho de sua própria consciência “que, em simplicidade e
piedosa sinceridade, não com sabedoria carnal, mas pela graça de Deus, têm Sua conversação no mundo”
(2Co 1.12).
3. Pela razão de ter sido esta Escritura tão freqüentemente incompreendida, e de maneira tão desastrosa,
dando lugar a que multidões de “indoutos e inconstantes” (οι αμαθεις και αστηρικτοι, homens não
ensinados de Deus e, conseqüentemente, inseguros na verdade, que é segundo a piedade), tenham-na
torcido para sua própria perdição, ― proponho-me esclarecer, de modo tão simples quanto me seja
possível, primeiro, quais são “os que estão em Cristo Jesus” e “não andam segundo a carne, mas segundo
o Espírito”; e, em segundo lugar, porque “não há condenação” para eles. Concluirei com algumas
inferências práticas.
I
1. Primeiro, quero mostrar quais são “os que estão em Cristo Jesus”. Não são os que crêem em seu nome,
os que são “achados nele, não tendo sua própria justiça, mas a justiça que é de Deus pela fé”? Os “que
têm redenção em seu sangue” são propriamente classificados com estando nele, porque estão em Cristo e
Cristo está neles. Uniram-se ao Senhor num só Espírito; estão enxertados nele como as varas na videira;
acham-se unidos, como os membros do corpo se unem à cabeça, de maneira tal que não há palavras que
possam traduzir tal relação, nem essa intimidade poderia ter antes penetrado nas cogitações de seu
coração.
2. Isto posto, “quem quer que esteja nele não peca”, nem “anda segundo a carne”. A carne, na linguagem
usual de S. Paulo, significa a natureza corrompida. Neste sentido ele emprega o vocábulo ao escrever aos
Gálatas: “As obras da carne são manifestas” (Gl 5.19); e um pouco antes: “Andai pelo Espírito e não
cumprireis a cobiça (ou desejo) da carne” (versículo 16). Para provar que os que “andam pelo Espírito”
“não cumprem os desejos da carne”, o apóstolo imediatamente acrescenta: “Porque a carne cobiça contra
o Espírito e o Espírito contra a carne, (visto serem contrários um ao outro), para que não façais as coisas
que quiserdes”, Deste modo se traduzem literalmente as palavras (ινα μη α εαν θελητε ταύτα ποιητε), e
não “Assim que não podeis fazer as coisas que quereis”, como se a carne dominasse o Espírito:
semelhante tradução não somente se afasta do texto original, com ele não tendo relação alguma, mas tira
ao argumento toda sua força; mais ainda: afirma justamente o contrário daquilo que se quer demonstrar.
3. Os que são de Cristo, os que nele permanecem, “crucificaram a carne com suas afeições e cobiças”.
Eles se abstêm de todas as obras da carne: “do adultério e impureza”, da “malícia e lascívia”, “da
idolatria, feitiçaria, inimizades e contendas”; das emulações, ira, facções, dissensões, heresias, invejas,
homicídios, bebedices e orgias; de todo desígnio, palavra e obra a que leva a corrupção da natureza.
Embora sintam em si mesmos a raiz de amargura, são, todavia, dotados do poder do Alto para recalcá-la
continuamente debaixo dos pés, de modo que não possa “florescer para os perturbar”; sendo certo, além
disto, que cada novo assalto que experimentam lhes dá uma nova oportunidade de louvor, exclamando
então: “Graças sejam rendidas a Deus, que nos concede a vitória por Jesus Cristo nosso Senhor”.
4. “Andam segundo o Espírito”, tanto no coração como na vida. O Espírito lhes ensina a amar a Deus e ao
próximo com um amor que é semelhante a uma “fonte que jorra para a vida eterna”. Pelo Espírito são
levados a todo desejo santo, a toda disposição divina e celestial, até que todo pensamento que brote de
seu coração ressuma santidade ao Senhor.
5. Os que “andam segundo o Espírito” são também guiados por Ele a toda santidade de conversação. Seu
“falar é sempre com graça, temperado com sal”, isto é, com amor e temor de Deus. “Nenhuma
comunicação corrupta sai de sua boca, mas somente o que é bom”, que é “para uso de edificação”, que é
“próprio para ministrar graça aos ouvintes”. E nisto se exercitam dia e noite, para fazer somente as coisas
que agradam a Deus, seguindo em todo o seu procedimento exterior aquele “que nos deixou exemplo para
que andássemos em suas pegadas”; procedendo, em todas as relações com o próximo, em misericórdia e
justiça; e “tudo quanto fazem”, em qualquer circunstância, “fazem-no para a glória de Deus”.
6. Estes são os que verdadeiramente “andam segundo o Espírito”. Cheios de fé e do Espírito, eles
possuem no coração, e mostram pela sua vida, através de todas as palavras e obras, os genuínos frutos do
Espírito de Deus, á saber: “amor, gozo, paz, longanimidade, ternura, bondade, fidelidade, mansidão,
temperança” e tudo quanto é amável e digno de louvor. Adornam em todas as coisas o Evangelho de Deus
nosso Salvador, e a toda a humanidade dão seguras provas de que são, na verdade, movidos pelo mesmo
Espírito “que levantou a Jesus Cristo dentre os mortos”.
II
1. Tenho em vista expor, em segundo lugar, como “não há condenação para os que assim estão em Cristo
Jesus” e, portanto, “não andam segundo a carne, más segundo o Espírito”.
Primeiramente: Quanto aos crentes em Cristo, andando eles desse modo, “não há condenação” vindicativa
de seus pecados passados. Deus não os condena em razão de nenhuma daquelas culpas: são como se
nunca tivessem existido; são lança das “como pedras no fundo do mar” e Deus não mais se lembra delas.
Tendo Deus “entregue seu Filho para serpropiciação” por eles, através da fé em seu sangue, declarou-lhes
“sua justiça para a remissão dos pecados passados”. Deus não lhes imputa esses pecados; sua memória
pereceu com eles.
2. E não há condenação que se levante de sua própria consciência; nenhum sentimento de culpa, ou receio
da ira de Deus. “Têm o testemunho em si mesmos”: estão cônscios de sua parte no sangue de aspersão.
Não receberam o espírito de escravidão ao medo, à dúvida e à incerteza angustiosa, mas “o Espírito de
Adoção”, por Ele clamando em sua alma: “Abba, Pau” Sendo, pois: “justificados pela fé”, têm no coração
a paz de Deus, paz que decorre de continuo sentimento de sua misericórdia perdoadora e de “uma boa
consciência para com Deus”.
3. Se disser: “Às vezes o crente em Cristo pode perder de vista a misericórdia de Deus; às vezes podem
cair sobre ele tão densas trevas, que não mais vê o invisível, não mais sente em si mesmo o testemunho de
que tem parte no sangue propiciatório, e então se julga, no intimo, condenado, acredita ter outra vez em si
mesmo a sentença de morte”. Respondo: suposto que isso seja assim; suposto que o aludido crente não
veja a misericórdia de Deus, então o tal não é crente de modo nenhum, porque a fé implica em iluminação
― a luz divina aclarando a alma. Na mesma medida em que alguém perde essa luz, perde por igual,
durante esse tempo, sua fé. O verdadeiro crente em Cristo pode, sem dúvida, perder a luz da fé, e, perdida
esta, pode, por algum tempo, recair em condenação; este não é, todavia, o caso dos que estão agora “em
Cristo Jesus”, neste momento crendo em seu nome. É certo, porém, que, enquanto crer e andar segundo o
Espírito, nem Deus o condena, nem o condena o próprio coração.
4. Não são condenados, em segundo lugar, com fundamento nos pecados presentes, por transgressão atual
dos mandamentos de Deus. Eles não os transgridem, visto como não “andam segundo a carne, mas
segundo o Espírito”. Esta é a prova contínua de seu “amor a Deus”: guardam seus mandamentos, como
testifica S. João: “Quem é nascido de Deus não peca, porque sua formação permanece nele, e ele não
pode pecar, porque é nascido de Deus”: não pode pecar enquanto perdurar aquela filiação divina e aquela
fé santa e amável permanecer. Enquanto ele se mantiver firme nessa relação filial e de fé, o “maligno não
lhe tocará”. É evidente que não pode ser condenado em virtude de pecados em que de modo algum
incorre. Os que são “conduzidos pelo Espírito não estão debaixo da lei” (Gl 5.18), nem debaixo da
maldição ou condenação da lei, porque esta a ninguém condena, senão aos transgressores. Assim,
prescrevendo a lei de Deus: “Não furtarás”, li ninguém condena, senão ao que furta. Quando a lei diz:
“Lembra-te do dia de descanso para o santificares”, somente condena aos que pecaminosamente se
esquecem desse dia ou dessa santificação. Contra os frutos do Espírito “não há lei” (versículo 23), como o
apóstolo mais largamente declara nas memoráveis palavras de sua primeira epistola a Timóteo: “Sabemos
que a lei é boa, se o homem dela usa legitimamente; sabendo isto (se, enquanto usa da lei de Deus, quer
para o dirigir quer para convencer, ele sabe disto oτi diκαιw νομος οu κειται; (não “que a lei não foi feita
para o justo”, mas) “que a lei não se impõe ao justo”: não tem força contra o justo, nem poder para o
condenar, mas “contra os libertinos e desobedientes, contra os ímpios e pecadores, contra os injustos e
profanos, segundo o glorioso Evangelho do bendito Deus” (1Tm 1.8, 9, 11).
5. Não são condenados, em terceiro lugar, por pecado interior, ainda que este neles permaneça. Que a
corrupção da natureza ainda persista, mesmo nos que são filhos de Deus pela fé; que estes conservem em
si os germes de orgulho e vaidade de cólera, cobiça e maus desejos, e ainda de pecados de toda espécie,
― é demasiadamente certo para ser negado, constituindo matéria de experiência diária. Por esta razão é
que S. Paulo, falando aos que estavam, segundo seu testemunho dado pouco antes, “em Cristo Jesus”
(1Co 1.2, 9); falando aos que “têm sido chamados por Deus para a companhia (ou participação) de seu
Filho Jesus Cristo”, declara: “Irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais e
criancinhas em Cristo” (1Co 11.1). “Criancinhas em Cristo”! Vemos logo que estavam “em Cristo”; eram
crentes de categoria inferior. E quanto de pecaminoso ainda permanecia neles! Quanto da “mente carnal,
que não está sujeita à lei de Deus”!
6. E, todavia, ainda não são condenados. Embora se ressintam da carne, da natureza corrupta; embora se
tornem, dia a dia, mais sensíveis ao fato de que seu “coração é desconcertante e desesperadamente mau”,
ainda assim, enquanto não cedem à maldade, enquanto não dão lugar ao diabo, enquanto sustentam guerra
contínua contra todo pecado, contra o orgulho, a ira, os maus desejos, não sofrendo o domínio da carne,
mas ainda andando “segundo o Espírito”, “não há condenação para os que estão em Cristo Jesus”. Deus
se agrada de sua sincera, posto que imperfeita obediência; e eles “têm confiança para com Deus”,
conhecendo que são seus “pelo Espírito que lhes deu” (1Jo 1.24).
7. Em quarto lugar, embora estejam continuamente convencidos do pecado que pervade tudo quanto
fazem; embora estejam cônscios de não preencher a lei perfeita, nem em pensamentos, nem em palavras,
nem em obras; embora conheçam que não amam ao Senhor seu Deus de todo seu coração, mente, alma e
forças; embora conservem maior ou menor dose de orgulho e obstinação, que se misturam mesmo a seus
melhores atos e sob estes se ocultam; embora, mesmo em suas mais diretas relações com Deus, quando,
unidos à grande assembléia dos crentes, derramando a alma em secreto perante Aquele que lê todos os
pensamentos e intenções do coração, continuamente se envergonham à vista de seus pensamentos
inconstantes ou da desorientação e da insensatez das afeições que nutrem, ― mesmo assim não há
condenação para eles, quer da parte de Deus, quer da parte de seu próprio coração. A descoberta desses
múltiplos de feitos somente lhes dá um sentimento profundo da constante necessidade do sangue de
aspersão, que o seu favor clama aos ouvidos de Deus e do Advogado que têm juntado do Pai, o qual “vive
sempre intercedendo por eles”. Essas fraquezas, em lugar de os apartarem daquele em que creram, antes
os levam para mais junto dele, já que de sua companhia sentem falta a todo o momento. E, ao mesmo
tempo, quanto mais profundo é o sentimento dessa falta, ma is profundo é o desejo que sentem de andar
em Jesus, a quem uma vez receberam, nesse andar com Deus empregando toda sua diligência.
8. Não são condenados, em quinto lugar, por pecados de enfermidade, como são usualmente chamados.
Talvez fosse mais conveniente tratá-los antes como fraquezas, para não parecer que favorecemos o
pecado, ou que de algum modo o diminuímos, equiparando-o a doença. Mas (se quisermos manter tão
ambígua quão perigosa expressão), por pecados de enfermidade quero designar as faltas involuntárias,
como afirmar como verdadeiro um fato que supomos tal, quando, na realidade, se prove ser falso; ou
quando prejudicamos a nosso próximo sem o saber ou sem o desejar, sendo talvez nossa intenção fazerlhe
o bem. Embora esses deslizes constituam desvios da santidade e da aceitável e perfeita vontade de
Deus, não são, entretanto, propriamente pecados, nem podem trazer Qualquer ofensa à consciência dos
“que estão em Cristo Jesus”. Não cavam abismo entre Deus e os crentes, nem interceptam a luz de sua
face, nem estabelecem contradição com o caráter dominante de quem “não anda segundo a carne, mas
segundo o Espírito”.
9. Finalmente, para eles “não há condenação” em virtude de qualquer evento que não esteja em suas mãos
evitar, seja de natureza íntima ou de caráter exterior, sela por fazer alguma coisa ou por deixar de fazê-la.
Por exemplo: ministra-se a Santa Ceia e dela não participas. Por que não o fizeste? Estás retido pela
doença: logo, não podes evitar a omissão, e por isso não és condenado. Não há culpa, porque não há livre
deliberação. Havendo da parte do homem uma boa disposição de mente, é ele “aceito segundo o que tem
e não de acordo com o que não tem”.
10. O crente, na verdade, pode algumas vezes ser afligido por não poder fazer aquilo que a sua alma
aspira: Impedido de prestar culto a Deus em meio de sua congregação Pode clamar: “Como a corça
suspira pelas águas vivas, minha alma suspira por ti, Ó Deus. Minha alma tem sede de ti, sim, do Deus
vivo: quando aparecerei na presença de Deus?” Pode ardentemente desejar (somente até que diga em seu
coração: “Não seja como quero, mas como tu queres”), “Ir com a multidão e entrar na casa de Deus”.
Mas, se não pode ir, não sente condenação, não se sente culpado, nem experimenta o desagrado de Deus,
podendo alegremente expressar ainda aqueles desejos, nestes termos: “A minha alma, confia em Deus!
Porque ainda lhe darei graças, a Ele, que é o auxilio de minha face e meu Deus”!
11. Mais difícil é determinar a posição do que é usualmente designado como pecado de surpresa, como é
o caso daquele que, ordinariamente possuindo sua alma em paciência, é acometido de súbita e violenta
tentação, e nessas circunstâncias fala ou age de maneira não condicente com a lei real: ― “Amarás a teu
próximo como a ti mesmo”. Talvez não seja fácil fixar a regra geral concernente às transgressões desta
natureza. Não podemos dizer que os homens sejam condenados, ou deixem de o ser, por pecados de
surpresa em geral: parece, entretanto, que, quando o crente é de surpresa arrastado a uma falta, haverá
maior ou menor condenação, segundo a maior ou menor concorrência de sua vontade. Concebemos que,
segundo a medida em que um desejo pecaminoso, ou palavra, ou ação, seja mais ou menos voluntário,
Deus seja mais ou menos ofendido, havendo, portanto, maior ou menor culpabilidade da alma:
12. Se assim for, muitos pecados de surpresa há que trazem grande culpa e condenação. Porque, em
alguns casos, o sermos surpreendidos é indicio certo de negligência voluntária e culpável, que poderia ter
sido evitada, ou de adormecimento de alma que poderia ter sido afugentado, antes que a tentação viesse.
O homem pode ser previamente advertido, seja por Deus ou pelos homens, de que provações e perigos
estejam próximos, e ainda dizer no próprio coração: “Um pouco mais de modorra, um pouco mais de
cruzar os braços para descansar”. Agora, se tal homem finalmente cai, embora inopinadamente, no laço
que ele podia ter evitado, ― a circunstância de haver caído de improviso não lhe serve de disculpa: podia
ter previsto e evitado o perigo. A queda, mesmo de surpresa, em casos tais, é, de fato, pecado voluntário,
que expõe o pecador à condenação, tanto de Deus, como de sua própria consciência.
13. Por outro lado, podem ocorrer assaltos súbitos, quer do mundo ou do deus deste mundo, quer de nosso
mau coração, assaltos que não prevíamos, e que dificilmente poderíamos imaginar. A esse assalto o
crente, fraqueando-na fé, pode possivelmente sucumbir, demonstrando, por exemplo, ira, ou pensando
mal de outrem, com escassa interferência de sua vontade. Em tal caso, o Deus zeloso indubitavelmente
lhe mostrará que agiu loucamente. Ele se convencerá de ter-se afastado da lei perfeita, da mente que havia
em Cristo, e, conseqüentemente; será oprimido de piedosa tristeza e se envergonhará amorosamente em
face de Deus. Não há necessidade de que venha sobre ele a condenação. Deus não lhe imputa essa
loucura, mas dele tem compaixão, “como um pai se compadece de seu filho”. E seu coração não o
condena: em meio daquela tristeza e vergonha, pode ainda dizer: “Eu confiarei e não temerei; porque o
Senhor Jeová é minha força e meu cântico; Ele também se tornou em minha salvação”.
III
1. Somente resta tirarmos das precedentes considerações algumas inferências práticas. Em primeiro lugar,
se “não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” e “não andam segundo a carne, mas segundo o
Espírito”, em razão de seus pecados passados, por que temes então, ó tu, que tens pequenina fé? Embora
teus pecados tenham sido tão numerosos como a areia que esta à borda do mar, que tem isto contigo,
agora que estás em Cristo Jesus? “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? Deus é quem os
justifica: quem, pois, os condenará?” Todos os pecados que cometeste, desde tua mocidade até a hora em
que foste “aceito no Bem Amado”, dispersaram-se como cisco, foram-se, perderam-se, deles não havendo
memória. Agora tu és “nascido do Espírito”: queres estar aflito ou conturbado por aquilo que foi feito
antes que tivesses nascido? Fora com teus temores! Não foste chamado para o medo, mas para o “espírito
de amor e para o estado de mente sadia”. Conhece tua vocação! Regozija-te em Deus teu Salvador, e dá
graças a Deus, teu Pai, mediante Cristo!
2. Queres tu dizer: “Mas eu outra vez cometi pecado, depois que tive redenção através de seu sangue! E
por isso é que “eu me aborreço a mim mesmo e me arrependo em pó e cinzas”. É justo que te aborreças a
ti mesmo, e Deus é Quem te levou a esta condição. Crês? Deus outra vez te habilitou a dizeres: “Sei que
meu Remidor vive”; e “a vida que eu agora vivo, vivo-a pela fé no Filho de Deus”? Então aquela fé outra
vez cancela tudo que é passado ― e não há condenação para ti. Em qualquer tempo em que
verdadeiramente creres no nome do Filho de Deus, todos os teus pecados, anteriores àquela hora,
dissipam-se como a bruma da manhã. Agora, pois, “permanece naquela liberdade pela qual Cristo te fez
livre”. Ele mais uma vez te libertou do poder do pecado, como também da culpa e da punição
conseqüentes ao pecado. Oh! “não te encurves outra vez ao jugo da escravidão” ― nem à vil, diabólica
escravidão do pecado, ou dos maus desejos, das inclinações perversas, das palavras ociosas, das obras
condenáveis, o que representa o mais perigoso jugo que o homem possa experimentar fora do inferno;
nem ao jugo do temor escravizante, atormentador, da culpa e condenação íntima!
3. Mas, em segundo lugar, é verdade que os que “estão em Cristo Jesus” não andam segundo a carne, mas
segundo o Espírito? Se isto não acontece, outra coisa não podemos inferir, senão que não tenham parte
nem sorte neste assunto, os que no presente cometem pecado. O tal está condenado até este momento pelo
seu próprio coração. Mas, “se nosso coração nos condena”, se nossa própria consciência dá testemunho
de Que somos culpados, indubitavelmente também Deus o faz, porque “Ele é maior do que nosso coração,
e conhece todas as coisas”, de modo que não podemos enganá-lo, ainda que nos enganemos a nós
mesmos. Não penses em dizer: “Fui justificado uma vez; meus pecados foram de uma vez perdoados”.
Não sei disto, nem discuto se assim foi, ou não. Talvez que, a esta distância dos fatos, seja quase
impossível saber, com alguma probabilidade de certeza, se se dera uma verdadeira, genuína obra de Deus,
ou se apenas enganaste a tua própria alma. Sei, porém, no mais elevado sentido da certeza, que “quem
comete pecado é do diabo”. Assim, pois, tu és de teu pai, o diabo. Não se pode negar: tu fazes as obras de
teu pai. Oh! Não te lisonjeies com esperanças vãs! Não digas à tua alma: “Paz, paz!” Não há paz. Clama
com mais força! Clama a Deus do fundo do abismo, se porventura pode Ele ouvir a tua voz. Vai a Deus
como a princípio, como desgraçado e pobre, como pecador miserável, cego e nu! E guarda tua alma de
todo repouso, até que seu amor compassivo outra vez se revele; até que Ele “cure tua apostasia” e de novo
te encha da “Fé que opera por amor”.
4. Em terceiro lugar, ― não há condenação para os que “andam segundo o Espírito”, em razão do pecado
interior que ainda reste, enquanto não dêem lugar à eclosão daquele mesmo pecado, nem em razão do
pecado que se misture a tudo quanto façam? Então, não te aflijas por causa da injustiça, embora esta
ainda permaneça em teu coração. Não te lamentes pelo fato de estares distante da gloriosa imagem de
Deus, nem porque o orgulho, a obstinação ou a incredulidade transpareça de todas as tuas palavras e
obras. E não te aflijas pelo conhecimento de todo esse mal de teu coração, conhecendo-te a ti mesmo,
segundo também és conhecido. Sim, roga a Deus que não penses de ti mesmo mais altamente do que te
convém pensar. Seja tua constante oração:
“Mostra-me, de modo que minha alma possa entender,
O abismo de meu pecado congênito;
Dize toda a incredulidade,
Todo o orgulho que nela se oculta”.
Quando, entretanto, Ele ouvir tua prece e tirar o véu de teu coração; quando te mostrar nitidamente de que
espírito é, então teme que tua fé te abandone, e não permitas que teu escudo te seja arrebatado. Abaixa-te.
Humilha-te até o pó.
Vê que és nada, ainda menos que nada, e vaidade. Mas ainda “não se turbe teu coração, nem se aflija”.
Resiste ainda: “Eu, eu próprio, tenho um advogado para com o Pai, Jesus Cristo o justo”. “E como os céus
estão mais elevados do que a terra assim está seu amor, muito acima de meus pecados”. Deus é: pois,
misericordioso para contigo, pecador ― e pecador como és! Deus é amor ― e Cristo morreu! Por isso o
próprio Pai te ama ― tu és seu filho! Assim, Ele de modo algum te negará qualquer bem! Boa coisa é que
todo o corpo do pecado, agora crucificado em ti, seja destruído? Isto será feito: serás purificado de toda
mancha da carne e do espírito. Convém que não permaneça coisa alguma em teu coração, exceto somente
o puro amor de Deus? Tem bom ânimo! “Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, e mente, e alma,
e forças. Fiel é o que to prometeu; Ele o cumprirá”. Tua parte é continuar pacientemente na obra da fé, no
trabalho do amor e em paz jubilosa, em humilde confiança, em calma, resignada e atenta expectação,
aguardando que o zelo do Senhor dos Exércitos realize isto.
5. Em quarto lugar. Se os que “estão em Cristo” e “andam segundo o Espírito” não são condenados por
pecados de fraqueza, como não o são por faltas involuntárias, nem por qualquer evento que não sejam
capazes de evitar, guarda-te, então, ó tu que tens fé em seu sangue, para que neste ponto Satanás não
obtenha vantagem sobre ti. És ainda insensato e fraco, cego e ignorante; mais fraco do que podem
expressar quaisquer palavras; mais insensato do que pode conceber teu coração, nada conhecendo como
devias conhecer. Todavia, não permitas que toda tua fraqueza e insensatez, ou quaisquer frutos que elas
produzam, e Que não estás ainda com forças para evitar, abalem tua fé, tua filial confiança em Deus, ou
quebre tua paz ou teu regozijo no Senhor. A regra que alguns aconselham, aplicável também ao pecado
voluntário, e que, neste último caso, pode ser talvez perigosa é indubitavelmente sábia e segura, se for
aplicada somente aos casos de fraqueza e enfermidade. Caíste, ó homem de Deus? Não permaneças por
terra, debatendo-te e deplorando tua fragilidade, mas humildemente clama: “Senhor, deste modo cairei a
cada momento, a não ser que me ampares com tua mão!”
Levanta-te, pois! Levanta-te de um salto e anda! Segue teu caminho! “Corre com paciência a carreira que
te está proposta”.
6. Finalmente, desde que o crente não precisa chegar à condenação, mesmo que seja surpreendida na
prática daquilo que aborrece, (suposto que na falta em que seja surpreendido não haja descuido ou
voluntária negligência de sua parte), se tu, que crês, fores assim surpreendido em culpa, recorre ao
Senhor: Ele será um bálsamo precioso. Derrama teu coração diante dele e mostra-lhe tua confusão; clama
com toda força àquele “que se compadece com ternura de tuas enfermidades”, para que o Senhor
estabeleça, fortaleça e firme tua alma e não permita que de novo calas. Ainda neste caso Ele não te
condena. Por que havias de temer? Não tens necessidade de nenhum “temor que te atormente”, Tu amarás
àquele que te ama e isto te basta: mais amor trará maior fortaleza. E, desde que o ames de todo teu
coração, serás “perfeito e íntegro, não faltando em coisa alguma”, Espera em paz por àquela hora em que
“o Deus de paz te santificará inteiramente, de modo que todo teu espírito, alma e corpo sejam preservados
sem defeito para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”.

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