29/09/2010

Crucificado.



Por  Pastor Wachaman Nee



Vamos deter-nos sobre tudo nas palavras de Romanos 6:6: "Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado".
O tempo deste verbo é dos mais preciosos, porque localiza o fato exatamente no passado. Este fato é definitivo, cumprido de uma vez por todas. A coisa foi feita e não pode ser anulada. O nosso velho homem foi crucificado de uma vez por todas, e nunca mais pode ser tirado da Cruz. Eis aqui o que devemos saber.


Quando sabemos isto, o que mais temos a fazer? Voltemos a ler novamente nosso texto. O seguinte passo encontra-se no versículo 11: "Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado". Estas palavras são claramente a continuação natural do versículo 6. Vamos lê-las de novo juntos: "Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado (...) Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus nosso Senhor". Esta é a ordem natural. Uma vez que sabemos que o nosso velho homem foi crucificado em Cristo, o passo seguinte é considerá-lo como morto. Apesar disso, apresentando a verdade de nossa união com Cristo, demasiadas vezes foi colocado o acento sobre este segundo ponto —considerar-nos como mortos—, como se fosse o ponto de partida, enquanto a ênfase deveria melhor ser colocada sobre o "saber-nos mortos". A Palavra de Deus mostra claramente que "saber" deve preceder a "reconhecer-se". "Sabendo que... façam de conta que..." o fato de "considerar-se" deve estar baseado sobre uma revelação divina, de outra forma a fé não terá fundamento sobre o que se apoiar. Quando sabemos, então espontaneamente nos consideramos como mortos.
Assim, tratando este argumento, não será preciso remarcar demasiadamente a exigência de considerar-nos mortos. Fomos demasiado tentados a nos considerar sem antes saber. Se não temos recebido primeiro uma revelação do fato pelo Espírito e tentamos considerar-nos, nos veremos arrastados em todo tipo de dificuldade. Quando chegue a tentação, começaremos a repetir febrilmente: "Eu estou morto, estou morto, estou morto!" Mas pelo mesmo esforço acabaremos por irritar-nos; e então dizemos: "Isto não serve de nada. Romanos 6:11 não pode ser realizado". E devemos admitir que o versículo 11 não pode ser compreendido sem o versículo 6.
Chegaremos, então, à seguinte conclusão: até não sabermos que o estar mortos com Cristo é um fato, mais nos esforçaremos para nos considerarmos assim, e mais intenso será o conflito, e mais segura a queda.
Durante anos após a minha conversão eu fui ensinado a me considerar como morto em Cristo. Eu tentei fazê-lo desde 1920 até 1927. Mais me reconhecia morto para o pecado, mais me manifestava vivo. Não podia simplesmente acreditar-me morto, e não podia procurar a morte. Quando procurei ajuda dos outros, me disseram para ler Romanos 6:11, e mais eu lia esse versículo, tentando aplicá-lo a mim mesmo, mais a morte parecia se distanciar; eu não conseguir chegar. Estava intensamente desejoso de obedecer àquele ensino, de considerar-me morto, mas não conseguia compreender por que não podia conseguir. Devo confessar que este pensamento atormentou-me por longos meses. Disse ao Senhor: "Se eu não consigo compreender claramente, se não consigo chegar a ver esta verdade fundamental, não farei mais nada. Não mais predicarei; não poderei mais te servir; devo, antes que nada, ser iluminado sobre estas coisas".
Durante meses continuei a minha busca, às vezes jejuei, mas sem nenhum resultado.
Lembro-me de uma manhã: foi uma manhã tão real que nunca poderei esquecê-la. Eu estava em meu escritório, sentado em minha escrivaninha, lendo a Palavra de Deus e orando, e disse: "Senhor, abri os meus olhos!" Então, num raio de luz, vi. Vi a minha união com Cristo. Vi que eu estava nEle e que quando Ele morreu, também eu morri. Vi que a questão da minha morte era um fato do passado e não do futuro, e que eu tinha morrido verdadeiramente como Ele, porque eu estava nEle quando Ele morreu. A luz tinha finalmente esclarecido as minhas trevas e mi iluminava completamente. Esta grande revelação inundou-me de tal gozo que pulei da minha cadeira e gritei: "O Senhor seja louvado, eu estou morto!" Desci as escadas à carreira e me deparei com um dos meus irmãos que ajudavam na cozinha; eu o peguei do braço e lhe disse: "Irmão, você sabe que eu estou morto?" Devo admitir que a sua expressão foi de estupefação. "O que você quer dizer?", perguntou-me. Continuei: "Você não sabe que Cristo morreu? Não sabe que eu morri com Ele? Não sabe que a minha morte é um fato tão verdadeiro quanto à dEle?" Oh, eu estava tão seguro! Tinha vontade de correr por todas as ruas de Xangai e proclamar a todos a minha nova descoberta. Daquele dia, nunca mais duvidei, nem por um único instante, da importância definitiva destas palavras: "Já estou crucificado com Cristo" (Gl 2:20).
Não quero dizer que não devamos pô-las em prática. Existem certas aplicações desta morte que consideraremos por um instante, mas temos aqui, antes que qualquer coisa, o fundamento. Eu fui crucificado: este é um fato cumprido.
 Qual é, então, o segredo que nos conduz a considerar-nos como mortos? Para dizê-lo numa palavra, é uma revelação. É uma revelação do próprio Deus.
"Não foi carne e sangue que to revelou, mas meu Pai, que está nos céus" (Mt 16:17); Ef 1:17-18). É necessário que os nossos olhos se abram a esta realidade da nossa união com Cristo; isto é mais que conhecê-la como uma doutrina. Uma semelhante revelação não tem nada de vago ou indefinido. Quase todos nós podemos nos lembrar do dia em que vimos claramente que Cristo morreu por nós; e deveremos estar igualmente seguros do momento no qual vimos que estamos mortos com Cristo. Isto não deve ser nebuloso ou incerto, mas bem preciso, porque é sobre esta base que avançaremos. Não é me considerando morto que eu o serei. Mas é porque já estou morto —porque vejo o que Deus tem feito de mim em Cristo— que posso mi considerar morto. Este é o modo justo de considerar-se. Não se trata de fazê-lo para chegar à morte, mas considerar-se morto para avançarmos.

O SEGUNDO PASSO: ASSIM, VOCÊS CONSIDEREM-SE COMO...
O que significa "considerar-se como"? "Considerar-se" significa, em grego, levar as contas, fazer a contabilidade. Fazer contas é a única coisa no mundo que nós seres humanos podemos fazer com precisão. Um pintor pinta uma paisagem. Pode fazê-lo com precisão matemática? O historiador pode garantir a exatidão absoluta de um tema, ou, o geógrafo, a fidelidade precisa de um mapa? Podem chegar a fazer as melhores aproximações. Também na conversação de todos os dias, quando tentamos contar um incidente com a melhor intenção de honestidade e fidelidade, somos incapazes de narrar com perfeita exatidão. É tão fácil exagerar ou diminuir os fatos, dizer uma palavra a mais ou uma a menos. O que pode fazer o homem que seja essencialmente digno de confiança? A aritmética! Nela não há lugar para erros. Uma cadeira mais uma cadeira somam duas cadeiras. Isto é verdade tanto em Londres como em São Paulo. Embora vocês vão para o Oeste ou para o Leste, será sempre a mesma coisa.
Em tudo o mundo, em todas as épocas, um mais um são dois. Um e um são dois nos céus, sobre a terra e no inferno.
Por que Deus disse para nos considerarmos mortos? Porque estamos mortos. Prossigamos a analogia com a contabilidade. Suponhamos que eu tenha R$ 800 no bolso, o que escreverei no meu livro de contas? Posso escrever R$ 700 ou R$ 900? Não! Deverei escrever no meu livro aquilo que realmente tenho no bolso. Levar a contabilidade significa reconhecer os fatos, não é fantasia. Assim, porque eu realmente morri, Deus me diz para me considerar morto. Deus não poderia pedir-me para considerar-me morto se eu estivesse ainda vivo. Para uma similar ginástica mental, a palavra "considerar-se" não seria apropriada; deveria, melhor, dizer: "não se considerar". Considerar-se não é uma forma de pretensão. Isso não significa que se eu tenho somente R$ 600 no bolso, reportando erroneamente R$ 700 no meu livro de contabilidade, conseguirei de um modo ou outro compensar a diferença. Para nada! Se não tenho mais que R$ 600, e trato de me persuadir repetindo: "Tenho R$ 700; tenho R$ 700; tenho R$ 700", vocês acreditam que este esforço da mente conseguirá aumentar a soma que tenho no bolso?
De jeito nenhum! Nenhum esforço de persuasão poderá trocar R$ 600 em R$ 700. De forma similar, não pode registrar-se falso e fazê-lo aparecer como verdadeiro. Mas, se da outra parte, é um fato que eu tenho R$ 700 no bolso, posso, com absoluta certeza, registrar R$ 700 no meu livro. Deus nos pede para nos considerarmos mortos, não porque morramos se nos consideramos assim, senão porque já estamos realmente mortos. Ele nunca nos pediu para acreditar em uma coisa que não seja verdadeira.
Dizemos que a revelação nos conduz naturalmente a considerar-nos mortos; mas não devemos perder de vista que é uma ordem que nos é dada: "Fazei de conta, considera-vos". É uma atitude definitiva para assumir. Deus nos pede para que façamos as contas e registremos: "Estou morto", e de ficarmos firmes ali. Por quê? Porque é um fato. Quando o Senhor Jesus foi colocado na Cruz, eu estava com Ele. Por isso reconheço que é verdade. Reconheço e confirmo que morri nEle. Paulo diz: "Considerai-vos como mortos para o pecado e como vivos para Deus". Como é isto possível? "Em Jesus Cristo". Não esqueçamos nunca que isto é verdade sempre e somente em Cristo. Se olharem para vocês mesmos, pensarão que não estão mortos; é uma questão de fé não em vocês, mas nEle. Olhem para o Senhor e reconheçam aquilo que Ele tem realizado. "Senhor, eu creio em Ti. Me afirmo em Ti". Permaneçamos neste estado de fé em cada momento da nossa vida.

CONSIDERAR-SE PELA FÉ
Os primeiros quatro capítulos e meio da carta aos Romanos falam de fé, de fé e de fé. Somos justificados pela fé em Cristo (Rm 3:28-5:1). A justiça, o perdão dos nossos pecados, a paz com Deus, tudo nos chega pela fé e sem a fé na obra perfeita de Jesus Cristo, não se pode obter nada. Mas na segunda parte da carta aos Romanos, não achamos mais repetida a mesma teoria da fé, e poderia parecer, a primeira vista, que a ênfase fosse colocada sobre outras coisas. Porém, não é assim, porque onde falta a palavra "fé" e "crer" achamos, em seu lugar, a palavra "considerai-vos"; e "considerar-se" e "crer" praticamente têm o mesmo significado.
O que é a fé? A fé é a aceitação de um fato de Deus. Ela sempre tem seu fundamento no passado. O que diz respeito ao futuro é esperança mais que fé; ainda que seja verdade que a fé tem como objetivo e fim o futuro, como vemos em Hebreus 11. Talvez por esta razão a palavra aqui escolhida é "considerar-se". Este é um termo que se refere exclusivamente ao passado: a tudo aquilo que vemos cumprido no passado, e não como um acontecimento que deva se repetir no futuro. Este é o tipo de fé que descreve Marcos em 11:24: "Tudo o que pedirdes em oração, crede que o recebereis, e tê-lo-eis". O que aqui se afirma é que se acreditamos de ter já obtido aquilo que pedimos (em Cristo, naturalmente), nos será concedido. Crer que o poderemos obter, ou que o obteremos não é fé no sentido aqui entendido. Crer que já o obtivemos, eis a verdadeira fé. A fé, neste sentido, apóia-se sobre o que já foi cumprido no passado. Aqueles que dizem: "Deus pode", ou bem "Deu poderia", ou ainda "Deu deve" e "se Deus quiser", não acreditam nada. A fé afirma sempre: "Deus o fez".
Quando é, então, que eu tenho fé para tudo o que concerne à minha crucifixão? Não certamente quando digo: "Deus pode" ou "se Deus quiser", ou "Ele deve crucificar-me", mas quando afirmo, com alegria: "Deus seja louvado, eu fui crucificado em Cristo!"
Em Romanos 3, vemos como o Senhor Jesus carregou os nossos pecados até morrer em nosso lugar, como o nosso substituto, para que nós sejamos perdoados. Em Romanos 6 nos vemos incluídos na morte com a qual Cristo cumpriu a nossa liberação. Quando nos foi revelado o primeiro fato, acreditamos nEle para a nossa justificação. Agora Deus nos pede para reconhecer o segundo fato para a nossa liberação. Assim, praticamente, na segunda parte da carta aos Romanos, "considerar-se" tomou o lugar de "crer". O sentido é o mesmo, e a ênfase não é diferente. Como entramos na vida cristã normal, a vivemos progressivamente pela fé numa realidade divina: em Cristo e em sua Cruz.



AS TENTAÇÕES E AS QUEDAS, DESAFIO À FÉ
As duas maiores realidades da história para nós são, então, estas: todos os nossos pecados foram cancelados pelo sangue, e nós mesmos fomos relacionados com a Cruz. Mas o que há, entretanto, com o problema da tentação? Qual deve ser o nosso comportamento quando, depois de ter visto e crido nestes fatos, achamos que em nós ressurgem os velhos desejos? O que acontece se nos iramos ou coisa pior? Não provará isto que tudo o que dissemos era falso?
Lembremos que uma das maneiras principais que o maligno sempre utiliza é a de nos fazer duvidar dos fatos divinos (Pensemos em Gênesis 3:4). Depois de ter visto, pela revelação do Espírito de Deus, que estamos verdadeiramente mortos em Cristo, e que o temos reconhecido, o inimigo virá com as suas insinuações: "Há alguma coisa que se agita interiormente. O que é? Pode dizer que isso está morto?" No momento em que este ataque aconteça, qual será a nossa resposta? É justamente este o ponto crucial. Acreditamos nos fatos tangíveis, de domínio natural, os quais claramente se explicam aos olhos de todos, ou bem acreditamos na realidade invisível do domínio espiritual, a qual não pode nem se tocar, nem se provar com a ciência?
Devemos vigiar atentamente. É indispensável lembrar o que foi estabelecido na Palavra de Deus, e saber o que não está ali. De que modo Deus declara que a liberação aconteceu? Não nos foi dito que a natureza do pecado que há em nós tenha sido destruída. Se nos apoiamos sobre isto, nos acharemos sobre uma base completamente errada, e na falsa posição do homem de quem falamos precedentemente, o qual, apesar de possuir no bolso R$ 600, procura registrar no livro R$ 700. Não, o pecado não foi erradicado, está dentro de nós e, se a ocasião se apresenta, triunfa sobre nós fazendo-nos cometer novos pecados, conscientemente ou inconscientemente. E por isto que sempre teremos necessidade de saber como opera o precioso sangue de Cristo.
Mas existe a diferença entre o problema do pecado e o dos pecados. Sabemos que Deus trata de maneira direta no que respeita aos pecados cometidos: Ele cancela sua lembrança por meio do sangue. Entretanto, quando se trata do princípio do pecado e de nos livrar do seu poder, vemos que Ele o faz de forma indireta. Não coloca aparte o pecado, mas o pecador. Nosso velho homem foi crucificado com Cristo; por isto o corpo, que antes era instrumento do pecado, ficou inoperante (Romanos 6:6) [1]. O pecado, o antigo padrão, está sempre perto, mas o escravo que o serve foi morto, assim foi liberado de seus ataques e seus membros não são mais utilizados. A mão do jogador é inoperante, a língua do blasfemador é inativa, e estes membros foram desarmados, liberados e ocupados pelo Senhor "como instrumentos de justiça" (Rm 6:13).
Podemos então dizer que "liberação do pecado" é uma definição mas escritural que "vitória sobre o pecado". As expressões "liberados do pecado" e "mortos para o pecado" de Romanos 6:7 e 11 implicam a liberação de um poder ainda bem presente e muito real, e não de uma coisa que já não existe mais.
O pecado está sempre ali, porém nós conhecemos a liberação do seu poder, numa medida que cresce dia a dia.
Esta liberdade é tão real que João pode escrever francamente: "Aquele que é nascido de Deus não peca habitualmente... não pode continuar no pecado" (1 Jo 3:9). Semelhante declaração, se mal compreendida, pode induzir-nos a erro. João não diz com isto que o pecado não existe mais para nós e que não cometeremos mais pecados. Diz que o pecado não está na natureza daqueles que nasceram de Deus. A vida de Cristo foi implantada em nós pelo novo nascimento, e esta nova natureza é liberada do poder do pecado. Contudo, existe uma grande diferença entre a natureza e o comportamento prático de uma coisa, como existe uma grande diferença entre a natureza da vida que está em nós e o nosso comportamento. Para ilustrar este pensamento (ainda que o exemplo seja inadequado), podemos dizer que a madeira não pode afundar na água, porque isso seria contrário à natureza; porém, na prática podemos ver que isso pode chegar acontecer se uma mão a mantém debaixo da água. O comportamento é um fato, assim como os pecados em nossa vida são fatos históricos; mas a natureza é também um fato, e o novo nascimento que recebemos em Cristo é igualmente um fato. Aquele que está "em Cristo" não pode pecar; aquele que está "em Adão" pode pecar e pecará cada vez que Satanás tenha a oportunidade de exercer seu poder sobre ele. Devemos, então, escolher os fatos sobre os que queremos basear-nos e sobre os que queremos viver: ou a realidade tangível de nossas experiências cotidianas, ou os fatos mais poderosos de que agora fazemos parte "em Cristo". O poder de sua ressurreição é nosso, e todo o poder de Deus está operando em nossa salvação. "O evangelho... é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê" (Rm 1:16). Mas tudo depende agora da medida com que se manifeste como real e verdadeira a obra de Deus em nossa própria história.
"A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem" (Hebreus 11:1). "As (coisas) que se não vêem são eternas" (2 Coríntios 4:18). Penso que todos sabem que Hebreus 11:1 é a única definição de fé que temos no Novo Testamento e, ainda mais, em todas as Escrituras. É muito importante que compreendamos realmente essa definição. Vocês estão acostumados à versão comum que descreve a fé como "certeza das coisas esperadas". Porém, o termo grego tem o sentido de uma ação, e não somente de um estado interior, de uma "certeza". Confesso que demorei anos para achar a expressão que, em nossa língua, deixasse claro e preciso o termo. Mas a nova versão de J. N. Darby é particularmente feliz nesta tradução: "a fé é a apropriação das coisas que esperamos".
Como nos "apropriaremos" de alguma coisa? O fazemos a cada dia. Não podemos viver neste mundo sem fazê-lo. Conhecem a diferença que existe entre "objeto" e "apropriação"? Um objeto é uma coisa que está diante de mim. Para me apropriar dele, devo ter uma faculdade ou um poder que o faça real para mim. Vejamos um exemplo simples. Por meio de nossos sentidos podemos escolher coisas que existem no reino da natureza e fazê-las entrar em nossa consciência. A vista e o ouvido, por exemplo, são duas de minhas faculdades que me permitem de apropriar-me da luz e do som. Existem as cores: o vermelho, o amarelo, o verde, o azul, o roxo; estas cores são coisas reais. Mas se fecho os olhos não são mais reais, elas já não são nada para mim.
Com a faculdade da vista tenho o poder de "apropriar-me" deles. A realidade está no poder; o amarelo é amarelo para mim. Não é somente que a cor existe, mas que eu tenho o poder a apropriar-me dela. Tenho o poder de fazer verdade para mim esta cor, e de ter realmente consciência. Isto é o que significa "apropriação" ou "possessão".
Se eu fosse cego, não poderia distinguir as cores, e se fosse surdo não poderia nunca desfrutar da música. Apesar disso, as cores e a música são coisas completamente reais; a sua realidade não está sujeita à minha capacidade ou incapacidade de apreciá-las. Ora, consideramos assim as coisas que, ainda que invisíveis, são eternas e, em conseqüência, reais. Evidentemente não podemos nos apropriar ou tomar posse das coisas divinas por meio dos nossos sentidos naturais, mas existe uma faculdade com a qual podemos nos apropriar das "coisas que se esperam", das coisas de Cristo: a fé. A fé faz reais para mim a realidade de Cristo. Milhares e milhares de pessoas lêem Romanos 6:6: "o nosso homem velho foi crucificado com ele". Pela fé esta é uma grande verdade e realidade; pelo simples arrazoamento mental fica a dúvida e pode não ser verdade, porque falta a luz espiritual.
Lembremos ainda que estamos aqui lidando não com promessas, mas com fatos. As promessas de Deus nos são reveladas mediante o seu Espírito, para possamos confiar nelas. Mas os fatos são fatos, e permanecem fatos, quer acreditemos, quer não. Se não cremos para nada na Cruz, ainda assim ela permanece verdadeira, mas não tem valor para nós. A fé não faz reais as coisas em si, mas a fé pode "tomar posse" delas e torná-las reais em nossa experiência.
É necessário considerar como uma invenção diabólica aquilo que contradiz a verdade da Palavra de Deus, porque, embora não seja um fato real para os nossos sentidos, Deus estabeleceu uma realidade maior, diante da qual todo acabará por inclinar-se. Eu fiz, um dia, uma experiência que, se não é aplicável à nossa questão em todos os seus particulares, pode ilustrar este princípio.
Alguns anos atrás eu enfermei. Tive durante seis noites uma febre fortíssima que me impedia de dormir. Finalmente o Senhor me deu sobre as Escrituras uma palavra particular de cura que me fez esperar que os sintomas do mal desapareceriam imediatamente. Ao contrário, meus olhos não queriam fechar-se e uma agitação molesta enchia meu ser. A temperatura cresceu ainda mais, as minhas pulsações eram mais freqüentes e a cabeça me doía terrivelmente. O médico me atormentava: "Cadê a promessa de Deus? Cadê a sua fé? O que há de suas orações?" Assim fui tentado para levar novamente a minha situação em oração, mas essa não foi ouvida, e em vez disso me viram à mente estas palavras da Escritura: "A tua palavra é a verdade" (João 17:17). Se a Palavra de Deus é verdade, pensei, o que significam todos estes sintomas? São somente invenções! Então, respondendo ao inimigo, declarei: "Esta insônia é uma mentira, esta dor de cabeça é uma mentira, esta febre é uma mentira, este pulso acelerado é uma mentira. Diante do que Deus me disse, todos os sintomas da enfermidade não são mais que invenções de parte tua, e a Palavra de Deus é a verdade para mim". Cinco minutos depois adormeci e durmi, e na manhã seguinte, quando acordei, estava bem.
É evidente que num fato pessoal como este eu pude errar ao interpretar o que Deus queria me dizer; mas no que se refere ao fato da Cruz não pode haver qualquer dúvida. Devemos acreditar em Deus, por muito que os argumentos de Satanás possam parecer-nos convincentes.
Um hábil mentiroso não age somente com as palavras, mas também com os comportamentos e as ações; pode passar facilmente tanto uma moeda falsa quanto uma mentira. O diabo é um hábil mentiroso, e nós não devemos esperar que as suas mentiras se limitem às palavras.
Ele recorre a sinais, sentimentos e enganos no esforço de esfriar a nossa fé na Palavra de Deus. Fique bem claro que não contesto a realidade da "carne". Teremos muito para dizer sobre este tema no curso do nosso estudo. Mas aqui se trata do que pode nos fazer vacilar da nossa posição em Cristo, a qual nos foi revelada. Devido a que temos aceitado de estarmos mortos com Cristo como um fato cumprido, Satanás fará de tudo para nos convencer, valendo-se das nossas experiências cotidianas, que não morremos completamente, mas estamos bem vivos ainda. Devemos então escolher. Acreditaremos nas mentiras de Satanás ou na verdade de Deus? Nos deixaremos levar pelas aparências o ficaremos firmes no q d disse?
Eu sou W. Nee. Eu sei que sou W. Nee. É um fato sobre o qual não tenho dúvidas. Poderei perder a memória e esquecer que sou W. Nee, ou ainda sonhar que sou uma outra pessoa. Porém, quaisquer sejam meus sentimentos, enquanto durmo sou W. Nee, e quando estou desperto sou W. Nee. Se me lembro, sou W. Nee, e se mi esqueço, igualmente sou W. Nee.
Mas naturalmente, se pretendo ser uma outra pessoa, tudo será muito mais diferente. Se tentasse de me apresentar como o Sr. C..., deverei repetir-me a cada minuto: "Você é o Sr. C..., Lembra, não esqueça que é o Sr. C...", e apesar de todos os meus esforços, é muito provável que não fique muito seguro de conservar esta personalidade; penso que se alguém me chamasse: "Sr. Nee!" eu responderia em seguida ao meu nome verdadeiro. A lealdade triunfaria sobre a ficção, e tudo quanto eu tiver feito para sustentar uma personalidade cairia no momento crucial da prova. Mas eu sou W. Nee, não tenho portanto nenhuma dificuldade em considerar-me W. Nee. É um fato, uma realidade e nada de quanto eu faça ou deixe de fazer a pode mudar.
Sendo assim, quer eu o sinta ou não, eu estou morto com Cristo. Como posso estar seguro? Porque Cristo morreu e: "se um morreu por todos, logo todos morreram" (2 Coríntios 5:14). Que eu possa prová-lo ou que possa tentar de provar o contrário, o fato persiste igualmente. Enquanto defenda este fato, Satanás não pode me vencer. Lembremos que os seus ataques são sempre dirigidos à nossa segurança. Se pode conseguir nos fazer duvidar da Palavra de Deus, ele terá conseguido seu objetivo e nos tem na mão; mas se ficarmos firmes na certeza de quanto Deus tem estabelecido, seguros que Ele não pode trair sua obra ou sua palavra, pouco importam, então, as táticas de Satanás; poderemos muito bem rir dele. Se alguém tentasse me convencer que eu não sou W. Nee, eu poderia rir com razão.
"Andamos por fé, e não por vista" (2 Coríntios 5:7). Talvez vocês se lembrem da experiência destes três personagens: a Ação, a Fé e a Experiência em "O peregrino". Eles caminhavam juntos sobre o fio de um muro. A Ação avança resolutamente sem olhar para trás. A Fé a segue e tudo vai bem enquanto mantém os olhos fixos sobre a Ação; porém apenas se preocupa com a Experiência e se volta para ver como essa esta indo, perde o equilíbrio e cai, arrastando consigo a pobre Experiência.
Cada tentação começa com olhar dentro de nós mesmos, considerando as aparências e tirando o olhar do Senhor. A Fé encontra sempre uma montanha, considerando as aparências de evidências que parecem contradizer a Palavra de Deus, uma montanha de contradições no domínio dos fatos concretos. Assim, ou a fé, ou a montanha, uma das duas deve ceder. Ambas não podem subsistir juntas. O que é mais triste é que amiúde a montanha fica e a fé vai embora. Isto não deve acontecer. Se recorremos aos nossos sentidos para descobrir a verdade, veremos que as mentiras de Satanás estão freqüentemente de acordo com as nossas experiências; porém se nos negarmos a nos deixar convencer de tudo o que contradiz a Palavra de Deus, e se mantemos firme a nossa fé nEle sozinho, veremos que as mentiras de Satanás se dissolverão e a nossa experiência entrará progressivamente em harmonia com a Palavra de Deus.
Para alcançar este resultado é necessário que nos ocupemos de Cristo de modo que Ele vá se fazendo mais vivo em nós, na vida de todos os dias. Em cada ocasião o vemos como a verdadeira justiça, a verdadeira santidade, a verdadeira vida da ressurreição em nós. Aquilo que vemos nEle de maneira objetiva, age em nós de maneira subjetiva —porém real—, a fim que se manifeste em nós naquela precisa circunstância.
Esta é a marca da maturidade. Isto quer dizer Paulo quando escreve aos gálatas: "Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós" (Gl 4:19). A fé assimila as obras de Deus; e a fé é sempre a assimilação das coisas eternas, de tudo aquilo que é eternamente verdadeiro.

PERMANECER NELE
Ainda que já nos demoramos bastante neste tema, existe uma outra coisa que pode nos ajudar a entender mais claramente.
As Escrituras declaram que "estamos verdadeiramente mortos", mas não dizem que estejamos mortos em nós mesmos. Procuraremos em vão a morte em nós mesmos; é justamente aqui que não a acharemos. Estamos mortos não em nós mesmos, mas em Cristo. Fomos crucificados com Ele porque estávamos nEle.
Conhecemos bem as palavras do Senhor Jesus: "Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós" (João 15:4). Meditemos nelas um instante. Elas nos recordam, em primeiro lugar, ainda mais uma vez, que não devemos lutar para entrar "em Cristo". Não nos é pedido entrar nEle, porque já estamos ali; mas nos é pedido de permanecer onde fomos colocados. É obra de Deus, Ele mesmo nos colocou em Cristo; nós devemos somente permanecer nEle. De fato, estas palavras colocam em nós um princípio divino, o de que Deus cumpriu a obra em Cristo e não em nós individualmente. A morte e a ressurreição do Filho de Deus que nos incluem a todos, foram completadas plenamente, na plenitude dos tempos, fora de nós. É a história de Cristo a que deve converter-se na experiência do crente, e nós não temos experiências espirituais fora dEle. As Escrituras nos dizem que fomos crucificados com Ele, com fomos vivificados, ressuscitados e sentados com Deus nos lugares celestiais (Rm 6:6, Ef 2:5-6, Cl 2:10). Esta não é simplesmente uma obra que deve ser completada em nós (ainda que seja assim, naturalmente), mas uma obra que já foi cumprida em união com Ele.
Vemos nas Escrituras que nenhuma experiência existe por si mesma. O que Deus completou em seu desígnio de graça é a associação com Cristo. O que Deus cumpriu em Cristo, o cumpriu no cristão; o que cumpriu na cabeça, o cumpriu também nos membros. É então um erro pensar que podemos alcançar qualquer experiência espiritual simplesmente por nós mesmos, fora de Cristo. Deus não deseja que nós adquiramos nada exclusivamente pessoal em nossa experiência. Ele não fará nada neste sentido, nem por vocês, nem por mim. Toda a experiência espiritual do crente está já em Cristo (ver o fim do capítulo 5). Ela já foi vivenciada por Cristo. O que chamamos de "nossa" experiência é somente o nosso ingresso em sua história e em suas experiências.
Seria estranho que uma vara de videira dê uvas brancas, enquanto uma outra vara produza uvas verdes, e ainda uma outra, pretas; que cada galho produzisse um fruto de sim mesmo, sem ter relação com a videira. Isto é impossível, inconcebível. É a videira que determina a natureza dos galhos. E ainda assim, alguns cristãos procuram as experiências simplesmente como experiências. Pensam na crucifixão como em um acontecimento, na ressurreição como em um outro acontecimento, na ascensão como em um outro ainda, sem nunca perceber que tudo isso está ligado a uma Pessoa. Somente quando o Senhor abre os nossos olhos para ver a Pessoa, nós podemos ver verdadeiramente.
Toda a verdadeira experiência espiritual significa que tomamos um dato cumprido em Cristo e que começamos a fazer parte dele; tudo o que não provém dEle neste modo é uma experiência destinada a se dissolver muito pronto. Eu tive esta revelação em Cristo; então, Deus seja louvado, ela é minha! A possuo, Senhor, porque está em Ti. Que coisa grande é o conhecer a realidade de Cristo como fundamento da nossa experiência!
Assim, o princípio fundamental sobre o qual Deus nos dirige em nossas experiências, não consiste em dar-nos coisas. Não consiste em nos fazer passar por um certo caminho para colocar em nós, como resultado, alguma coisa que possamos chamar de "nossa experiência". Deus não cumpriu em nós uma obra que nos permitirá dizer: "Eu morri em Cristo no passado março", ou "Eu ressuscitei em 1º de janeiro de 1937", nem "Quarta-feira passada pedi uma experiência precisa e a obtive". Não, não é assim. Eu não procuro a experiência em si mesma, neste tempo de graça. A noção de tempo não pode conduzir o meu pensamento quando considero a história do espírito. Mas, dirá alguém, o que devemos pensar das crises que muitos de nós têm atravessado? É verdade, alguns de nós temos atravessado verdadeiras crises em suas vidas. George Muller, por exemplo, pode dizer, dobrando-se até o chão: "Houve um dia em que George Muller morreu". O que significa isso? Não, não duvidamos da realidade das experiências espirituais que atravessamos, nem da importância das crises pelas quais Deus nos conduz em nosso caminho com Ele; já ressaltamos a necessidade de sermos bem precisos sobre o motivo central das crises que atravessamos em nossas vidas. Porém o fato que nos interessa é que Deus não nos dá experiências simplesmente individuais. Tudo aquilo que experimentamos é somente a entrada naquilo que Deus já cumpriu. É a "realização" no tempo das coisas eternas. A história de Cristo se converte em nossa história espiritual; nós não temos a nossa história separada da dEle. Toda a obra que nos abrange não é assim feita em nós, senão em Cristo. Ele não separa a obra que cumpre no individuo daquele cumprida sobre a Cruz. Nem a vida eterna nos é entregue separadamente; a vida está no Filho e "quem tem o Filho tem a vida" (1 Jo 5:12): Deus cumpriu todo em seu Filho e nos colocou nEle; nós estamos incorporados em Cristo. Ora, o ponto importante nisso tudo é o valor prático e real da aplicação da fé que diz: "Deus me colocou em Cristo, portanto, tudo aquilo que é verdade dEle é verdade de mim. Eu quero permanecer nEle". Satanás procura sem parar de nos fazer desviar da nossa posição em Cristo, de ter-nos fora dEle, de nos convencer que estamos longe, e com tentações, erros, sofrimentos, provas, nos fazer cruelmente sentir que não estamos em Cristo. O nosso primeiro pensamento é que, se estivéssemos em Cristo, não estaríamos nesse estado de debilidade, e portanto, a julgar pelo que estamos passando, devemos estar separados dEle; assim começamos a orar: "Senhor, coloca-me em Cristo". Não! Deus nos pede para "permanecer" em Cristo; este é o caminho da liberdade. Por quê? Porque isto abre a Deus a via para intervir em nossa vida e cumprir a sua obra em nós. Isto permite a ação do seu poder divino, o poder da ressurreição (Rm 6:4 - 9:10), a fim que as realidades que se encontram em Cristo se tornem progressivamente as realidades da nossa experiência cotidiana, e porque lá, onde primeiro "reinava o pecado" (Rm 5:21), podemos constatar com alegria que já não somos mais "escravos do pecado" (Rm 6:6).
Quando nos apoiamos firmemente sobre a base daquilo que Cristo é para nós, achamos que tudo o que é verdade dEle, transforma-se em verdade em nós, em nossa vida. Se, ao contrário, voltarmos sobre a base daquilo que somos que de nossa velha natureza, repetimos as mesmas experiências de desconforto e escravidão (ver capítulo 6). Se estamos em Cristo, temos tudo; se voltamos onde estávamos antes, já não temos nada.
Amiúde nos colocamos no ponto errado para achar a morte em nós mesmos. Ela está em Cristo. Nós não temos que olhar em nós para ver que estamos bem vivos para o pecado; porém, no momento em que fixamos o olhar por cima de nós, no Senhor, Deus vê que a morte opera aqui, mas que a "novidade de vida" opera em nós. Estamos "vivos em Deus" (Rm 6:4-11).
"Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós". Estas palavras testemunham duas coisas: um mandamento acompanhado de uma promessa. Isto significa que há na obra de Deus um aspecto objetivo e um subjetivo, e que o aspecto subjetivo depende do objetivo; o "Eu permanecerei em vós" é a conseqüência do "permanecei em mim". Devemos estar atentos a não preocupar-nos demasiado com a parte subjetiva, para não voltar-nos de mais em nós mesmos. Devemos afirmar-nos na parte objetiva "permanecei em mim", deixando que Deus se ocupe da parte subjetiva. Isto é o que Ele começou a fazer.
Podemos parangonar tudo isto com a luz elétrica. Vocês estão num quarto onde escurece, o dia declina. Desejariam ter luz para poder ler. Há uma luminária sobre a mesa. O que vocês farão? Olharão fixo para que ela ligue? Ou pegarão um pano para poli-la? Não, vocês se levantarão, cruzarão a habitação até o interruptor e então ligarão a luz. A vossa atenção vá até a fonte da energia e quando fazemos o necessário, a luz brilhará no quarto. Assim é no nosso caminho com o Senhor: a nossa atenção deve estar fixa em Cristo. "Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós". Esta é uma ordem divina. A fé nos fatos objetivos transforma estes fatos verdadeiros subjetivamente. Como diz o apóstolo Paulo: "Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem..." (2 Coríntios 3:18). O mesmo princípio é verdadeiro no que diz respeito ao fruto da nossa vida: "quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto" (João 15:5). Nós não devemos tentar produzir fruto, nem concentrar a nossa mente em nossos produtos. O que devemos fazer é manter firme o nosso olhar sobre Ele. E enquanto o fazemos, Ele é fiel para cumprir a sua Palavra em nós.
Como permanecer nEle? "Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor" (1 Coríntios 1:9). Era assunto de Deus colocar-nos nEle e Ele o fez. Assim, estamos nEle! Não voltamos sobre o nosso ser particular. Não olhamos mais a nós mesmos, como se não estivéssemos em Cristo. Olhamos para Jesus com a certeza que estamos nEle. Permanecemos nEle. Repousamos sobre o fato que Deus nos colocou em seu Filho, a avançamos com a confiança que Ele cumprirá a sua obra em nós. É Ele que realiza em nós a gloriosa promessa de que "o pecado não terá domínio sobre vós" (Rm 6:14).


O PODER DE SEPARAÇÃO DA CRUZ

O Reino deste mundo não é o Reino de Deus. Ele estabeleceu um sistema universal, um universo de Sua criação que devia ter como cabeça Cristo, seu Filho. "Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele." (Colossenses 1:16-17). Mas Satanás, operando através da carne do homem, estabeleceu em vez disso um sistema rival, que as Escrituras chamam "o mundo", um sistema no qual estamos envolvidos e sobre o qual ele domina, porque se converteu no "príncipe deste mundo" (João 12:31).

DUAS CRIAÇÕES
Assim, por obra de Satanás, a primeira criação se converteu na velha criação, que já não tem interesse para o Senhor. O interesse de Deus está agora concentrado na segunda e nova criação, um novo reino e um novo mundo, no qual nada da velha criação, do antigo reino do antigo mundo poderá ser transferido. É necessário agora considerar dois reinos rivais, e ver a qual deles nós pertencemos.
Em verdade, o apóstolo Paulo não nos deixa dúvidas de qual destes dois domínios seja, hoje, o nosso. Ele diz que Deus, na redenção, "nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor" (Colossenses 1:12-13). A nossa cidadania de agora em diante pertence a este reino.
 Mas para nos fazer entrar nele, Deus deve cumprir em nós alguma coisa nova. Deve fazer de nós novas criaturas. Não podemos pertencer ao novo reino sem sermos criados de novo. "O que é nascido da carne é carne" (João 3:6), e "carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção" (1 Coríntios 15:50). Seja qual for o nível de seu desenvolvimento, de sua cultura ou de seu valor, a carne permanece sempre carne. A nossa possibilidade de pertencer ao novo reino dependa da criação à qual pertencemos. Somos da velha ou da nova? Nascemos da carne ou do Espírito? A condição definitiva para pertencer ao novo mundo depende da nossa origem. Não depende "do bom ou do mau", mas "da carne e do Espírito". Aquele que nasceu da carne é carne, e nunca será outra coisa. Aquilo que pertence à velha natureza não poderá jamais passar para a nova... desde que compreendemos realmente o que Deus procura, ou seja, alguma coisa profundamente nova para Ele sozinho, vemos claramente que nós não podemos aportar, neste novo nascimento, nenhum elemento da antiga natureza.
Deus queria nos ter para si mesmo, mas não podia nos fazer entrar em seu plano assim como nós éramos; então, antes que nada nos fez morrer por meio da Cruz de Cristo, e depois, com a sua ressurreição, nos deu nova vida. "Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo" (2 Coríntios 5:17).
Sendo agora novas criaturas, com uma nova natureza e um conjunto de novas faculdades, podemos entrar no novo reino e no novo mundo. A Cruz foi o meio pelo qual Deus se serviu para pôr fim às "velhas coisas", deixando inteiramente de lado o nosso "velho homem", e a ressurreição é o meio pelo qual Deus nos deu tudo aquilo que necessitávamos para viver neste novo mundo. "De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida" (Rm 6:4).
A grande negação do universo é a Cruz, porque por meio dela Deus cancelou tudo aquilo que não era dEle: o fato mais positivo no universo é a ressurreição, porque por ela Deus deu existência a tudo aquilo que desejava ter no novo mundo. Assim, a ressurreição é a fonte do novo nascimento. É uma bênção ver que a Cruz dá fim a todo aquilo que pertencia ao primeiro regime e que a ressurreição introduz aquilo que se adapta ao segundo. Tudo o que teve inicio antes da ressurreição deve ser cancelado. A ressurreição é o novo ponto de partida de Deus.
Estamos agora diante da presença de dois mundos, o antigo e o novo. Sobre o antigo Satanás exerce soberania absoluta. Vocês podem ser homens bons na velha natureza, mas enquanto permaneçam estarão sob uma sentença de morte, porque nada do velho pode passar para o novo. Através da Cruz, Deus declara que tudo aquilo que é da velha natureza deve morrer. Nada do que esteve no primeiro Adão pode ultrapassar a Cruz; tudo acaba lá. Quanto antes o vejamos, melhor será, porque através da Cruz Deus abriu a via para liberar-nos desta velha natureza. Ele reuniu tudo aquilo que era de Adão na pessoa de seu Filho e o crucificou; tudo o que era de Adão foi, portanto, destruído nEle. Assim Deus proclamou diante de todo o universo: "por meio da Cruz destruí todos aqueles a não são meus; vocês que pertencem à velha natureza estão compreendidos nesta obra: também vocês foram crucificados com Cristo!" Ninguém pode fugir a este veredicto.
Isto nos leva à questão do batismo.
"Ou, porventura, ignorais que todos quantos fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte..." (Rm 6:3-4). Devemos agora nos perguntar o que significam estas palavras.
Nas Escrituras o batismo está associado à salvação: "Quem crer e for batizado será salvo" (Marcos 16:16). Não podemos falar, segundo as Escrituras, de "regeneração pelo batismo", mas podemos falar de "salvação pelo batismo". O que é a salvação? Ela está em relação não com os nossos pecados nem com o poder do pecado, mas com o cosmos, vale dizer, com o sistema deste mundo. Nós estamos no sistema do mundo satânico. Estar salvos significa sair deste sistema para entrar naquele de Deus.
Pela Cruz do Senhor Jesus Cristo, diz Paulo: "o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo" (Gálatas 6:14). Este é o tema desenvolvido por Pedro quando fala das oito pessoas que "se salvaram através da água" (1 Pedro 3:20). Entrando na arca, Noé e os seus saíram, pela fé, deste velho mundo corrupto para passar a um novo mundo. A coisa essencial não é que foram pessoalmente salvos do dilúvio, mas que saíram deste sistema corrupto. Esta é a salvação.
Pedro continua a seguir:
"...que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo..." (versículo 21). Em outras palavras, por este aspecto da Cruz que está representado pelo batismo, vocês são liberados deste presente mundo malvado, e o confirmam com a sua imersão na água. Este é o batismo "em sua morte", que põe fim a uma criação; mas é também o batismo "em Jesus Cristo" que faz uma nova criatura (Romanos 6:3). Vocês entram na água e o seu mundo, simbolicamente, desce com vocês. Vocês ressurgem em Cristo, porém o seu mundo permanece submergido. "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa. E lhe pregavam a palavra do Senhor, e a todos os que estavam em sua casa. E, tomando-os ele consigo naquela mesma hora da noite, lavou-lhes os vergões; e logo foi batizado, ele e todos os seus" (Atos 16:31-33). Com este ato o carcereiro e os que estavam com ele deram testemunho diante de Deus, ao seu povo e às potencias espirituais que estavam realmente salvos de um mundo condenado. Como resultado, lemos, se alegraram grandemente porque "haviam acreditado em Deus".
Portanto está claro que o batismo não é uma simples questão relativa a um copo de água ou a um batistério. É uma coisa muito maior, ligada à morte e à ressurreição do nosso Senhor Jesus Cristo, tendo em vista dois mundos. Todos os que têm trabalhado em países pagãos conhecem quão tremendas discussões são provocadas pelo batismo.

A SEPULTURA SIGNIFICA UM FIM
Pedro continua no ponto que citamos acima e descreve o batismo como "a indagação de uma boa consciência para com Deus" (1 Pedro 3:21). Ora, nós não podemos responder se não há alguém que nos fale. Se Deus não nos tivesse falado nada, não teríamos nada para responder. Mas Deus falou; nos falou com a Cruz. Com ela nos disse que o seu juízo está sobre nós, sobre a velha natureza e sobre o antigo reino. A Cruz não concerne somente a Cristo pessoalmente; ela não é uma Cruz "individual". É uma Cruz que nos abraça a todos, uma Cruz "corporativa", uma Cruz que inclui você e eu. Deus nos colocou a todos em seu Filho e nos crucificou com Ele. No último Adão cancelou aquilo que estava no primeiro Adão.
Qual será agora a minha resposta à sentença que Deus pronunciou sobre a velha criação? Respondo, pedindo o batismo. Por quê? Em Romanos 6:4, Paulo explica que batismo significa sepultura: "De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte". O batismo, evidentemente, está associado à morte e à ressurreição, ainda que não seja, em si mesmo, nem morte nem ressurreição: é uma sepultura. Mas, quem está qualificado para ser sepultado? Somente aqueles que estão mortos! Se, então, eu peço de ser batizado, declaro que estou morto, vale dizer, bom somente para o túmulo.
Infelizmente, certas pessoas foram adestradas para considerar a tumba como um meio para morrer: elas procuram morrer fazendo-se sepultar! Permitam-me dizer formalmente que, se os nossos olhos não foram abertos por Deus para ver que já estamos mortos em Cristo e que fomos sepultados com Ele, não temos direito de sermos batizados. A razão pela qual descemos na água é que temos reconhecido de sermos, aos olhos de Deus, já mortos. A isto nós rendemos testemunho. A pergunta de Deus é clara e simples: "Cristo morreu e Eu incluí você neste fato. O que você tem a dizer a este respeito?" Qual será a minha resposta? "Senhor, eu creio que Tu cumpriste a crucifixão. Eu digo sim à morte e à sepultura à qual me ligas". Ele me consignou à morte e à tumba; quando eu Lhe peço de ser batizado, declaro publicamente o meu consenso com este fato.
Uma mulher da China, havendo perdido seu marido, enlouqueceu da dor e refutou-se decididamente a sepultá-lo. Durante quinze dias ele permaneceu na casa. "Não", falava a mulher, "Ele não está morto; eu falo com ele todas as noites". Ela não queria sepultá-lo porque, coitadinha, não acreditava que estivesse morto. Quando consentimos que sepultem os nossos seres queridos? Até que tenhamos a mínima esperança de que estejam ainda vivos, não teremos nunca o pensamento de sepultá-los. Assim, em que momento eu pedirei pelo batismo? Quando eu veja que os caminhos de Deus são perfeitos e que eu mereci a morte; e quando acredite realmente que Deus já me crucificou. Quando eu esteja bem persuadido, diante de Deus, que estou verdadeiramente morto, solicitarei ser batizado. Direi: "Deus seja louvado, eu estou verdadeiramente morto! Senhor, Tu me deixaste morto; é hora que eu seja sepultado!"
Na China temos dois serviços de socorro, uma "Cruz Vermelha" e uma "Cruz Azul". A primeira assiste aqueles que foram feridos em combate, mas que estão ainda vivos, e leva a eles ajuda e cura. A segunda se ocupa das vítimas que sucumbem pela fome, a inundação ou a guerra, e dá a eles sepultura. Deus age, a nosso respeito, por meio da Cruz de Cristo, de forma mais severa que a da "Cruz Vermelha". Ele não si esforça para reparar a velha criação. Os sobreviventes mesmos são condenados à morte e ao sepultamento, a fim que revivam numa nova vida. Deus cumpriu a obra da crucifixão, e assim agora estamos entre o número dos mortos; mas devemos aceitar isto e submeter-nos à obra da "Cruz Azul", que leva a termo a obra da morte com o sepultamento. Existe um mundo velho e um mundo novo e entre os dois há uma tumba. Deus me crucificou, mas eu devo consentir em ser colocado no túmulo. O meu batismo confirma a sentença de Deus, que caiu sobre mim por meio da Cruz do seu Filho. Isso confirma a minha separação do antigo mundo, e testifica que agora pertenço ao novo. O batismo não é, então, uma pequena coisa. Significa para mim uma clara e consciente ruptura com o velho modo de viver. É aqui o significado de Romanos 6:2: "Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?". Paulo diz, em realidade: "Se desejam continuar a viver no velho mundo, para que se batizam? Não deveriam nunca ser batizados se desejam continuar a viver no antigo reino." Somente quando estejamos persuadidos disto, estaremos prontos a preparar o terreno para a nova criação, consentindo em sepultar a velha.
Em Romanos 6:5, escrevendo ainda para aqueles que "fomos batizados" (versículo 3), Paulo mostra que "fomos convertidos numa mesma planta com Cristo por uma morte similar à dEle". Porque, por meio do batismo, reconhecemos que Deus estabeleceu uma união íntima entre nós e Cristo graças à morte e a ressurreição. Um dia procurei sublinhar esta verdade a um irmão crente. Estávamos juntos bebendo chá, e eu peguei um pedacinho de açúcar e o coloquei em minha xícara. Depois de alguns instantes, perguntei: "Pode me dizer agora cadê o açúcar e cadê o chá?". "Não", respondeu ele, "você os misturou, um se perdeu no outro e já não podem mais ser separados". Foi uma figura simples, mais o ajudou a ver o caráter íntimo e decisivo da nossa união com Cristo na morte. Deus nos colocou lá e o que Deus cumpre não pode ser anulado.
O que implica, de fato, esta união? O real significado do batismo é que na Cruz fomos "batizados" na morte histórica de Cristo, de forma que sua morte se converteu na nossa. A nossa morte e a sua estão assim tão profundamente identificadas que é impossível distingui-las. É a este "batismo" histórico, a esta união com Deus que Ele mesmo cumpriu, que nós damos o nosso consenso enquanto descemos às águas do batismo. O testemunho público que rendemos hoje com o batismo demonstra a nossa aceitação do fato que a morte de Cristo, dois mil anos atrás, foi uma morte tão poderosa e tão profunda que pode nos levar nela, destruindo em nós tudo aquilo que não é de Deus.

A RESSURREIÇÃO EM NOVIDADE DE VIDA
"Se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição" (Rm 6:5).
No que diz respeito à ressurreição o símbolo é diferente, porque há um novo elemento introduzido. Eu sou "batizado em Sua morte", mas não entro na mesma forma em sua ressurreição, porque (Deus seja louvado!) a sua ressurreição entra em mim para me dar nova vida. Na morte do Senhor a ênfase está colocada sobre "eu em Cristo" somente. Na ressurreição, ainda que isto permaneça verdadeiro, um novo acento é colocado sobre "Cristo em mim". Como pode Cristo me fazer participar de sua vida de ressurreição? Como é que eu recebo esta nova vida? Creio que Paulo apresente um ótimo exemplo com as palavras que adota: "convertidos numa mesma coisa com Ele", "convertidos num com Ele" (tradução literal do texto original), porque as palavras traduzidas em "convertidos numa mesma coisa com Ele" têm em grego o sentido de "enxertada" , e descrevem maravilhosamente a imagem da vida de Cristo que vem a nós com a ressurreição.
Visitei um dia, em Fukin, um homem proprietário de um pomar de "Long-Ien" . Possuía algumas centenas de hectares de terra e perto de trezentas árvores frutíferas. Perguntei-lhe se aquelas árvores tinham sido enxertadas ou eram plantas naturais. "Você acha", me disse, "que eu desperdiçaria a minha terra não cultivando plantas enxertadas? Que valor poder esperar de obter com árvores naturais?". Pedi-lhe, então, que me explicasse o procedimento do enxerto, o que ele fiz de boa vontade.
"Quando uma árvore tem atingido uma certa altura, corto o topo e faço o enxerto", me disse. Depois, assinalando uma árvore, continuou: "Vê aquela árvore? Eu a chamo de 'árvore-pai', porque todos os enxertos necessários para as outras árvores precedem desta. Se as outras árvores tivessem sido abandonadas simplesmente ao seu desenvolvimento natural, os seus frutos seriam menores e estariam constituídos principalmente de uma casca grossa e sementes. Esta árvore, da qual eu tiro os enxertos para todas as outras, produz um fruto gostoso, grosso como uma ameixa, com uma superfície fina, de pequena semente, e naturalmente todas as árvores enxertadas produzem o mesmo fruto". "Como é que isso pode acontecer?", perguntei. "Pego simplesmente um pouco da natureza desta árvore para transmiti-la aos outros", explicou-me. "Faço um corte na árvore selvagem e insiro nela um elemento daquela boa. Então a amarro e a deixo crescer". "Mas como cresce?" perguntei. "Não sei", respondeu, "mas cresce". A continuação me mostrou uma arvore que produzia frutos pequenos, miseráveis, de um velho tronco, por debaixo do enxerto, enquanto um gostoso e suculento fruto crescia do novo tronco, acima do enxerto. "Eu deixei os velhos brotos com seu fruto inútil para mostrar a diferença", disse.
 "Destes pode se apreciar o valor do enxerto. Você entende agora a razão pela qual não cultivo senão árvores enxertadas?"
Como pode uma árvore produzir o fruto de uma outra? Como pode uma árvore selvagem produzir bons frutos? Somente com o enxerto. Somente se se transplanta nele a vida de uma árvore boa. Mas se um homem pode enxertar o galho de uma árvore numa outra árvore, Deus não pode tomar a vida de seu Filho e enxertá-la em nós?
Uma mulher chinesa queimou-se gravemente os braços e foi transportada no hospital. Para evitar uma forte contração dos tecidos após a cicatrização é necessário enxertar um pedaço de pele nova sobre a parte afetada, mas o médico tentava em vão transplantar a pele da mulher mesma nos braços. A causa da idade e de uma má alimentação, o transplante da própria pele demonstrou ser demasiado fraco e não "afixava".
Uma enfermeira estrangeira ofereceu então um pedaço de pele e a operação foi um sucesso. A pele nova se grudou à velha e a mulher deixou o hospital com os braços perfeitamente curados; permaneceu, porém, sobre os seus braços amarelos uma seção de pele branca estrangeira, para lembrá-la da história passada. Vocês perguntarão como podia a pele de um outro crescer sobre os braços daquela mulher? Eu não sei, só sei que aconteceu.
 Se um cirurgião deste mundo pode enxertar um fragmento de pele de um ser humano para transplantá-lo em outro, o Divino Cirurgião não poderá transplantar a vida de seu Filho em mim? Eu não sei como Ele faz. "O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito" (João 3:8). Nós não podemos fazer nada e não temos nada a fazer para contribuir, porque com a ressurreição Deus já fez tudo.
Deus já cumpriu tudo. Existe uma única vida fecunda no mundo, e essa foi enxertada em milhões de outras vidas. Nós a chamamos "novo nascimento". O novo nascimento é a infusão de uma vida que eu não possuía antes. Não é uma transformação da minha vida natural, é uma outra vida, inteiramente nova, absolutamente divina e que se transformou em minha vida.
Deus deu fim à velha criação com a Cruz de seu Filho, para poder introduzir, com a ressurreição, uma nova criação em Cristo. Ele fechou a porta ao antigo reino de trevas e me fez entrar no reino de seu amado Filho. Eu exulto pelo fato que tudo foi cumprido; que, pela Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, este velho mundo foi crucificado em mim, e eu fui crucificado para o mundo" (Gl 6:14). O meu batismo é o testemunho público que eu rendo deste fato. "Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação" (Rm 10:10).






3 comentários:

Jessy disse...

Nossa, que textão.. rsrs Mas creio que é muito edificante, vou copiar para ler com calma no pc..
Que o Senhor continue te abençoando! :D

Jessy disse...

Mtoo bom esse texto!!!

Paulo Malhaes disse...

Muito bom eu gostei

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