16/07/2012

Final dos Tempos





 Por Reverendo John Wesley 
Do livro (Teologia de John Wesley)


A doutrina da salvação tem a preparação do homem para a
vida com Deus como o seu último fim. A fé e a esperança da vida
cristã finalmente se fundem no amor perfeito, dado por Deus, o objetivo
da vida humana. Aquele que é puro de coração verá a Deus; e
Wesley crê que todo o movimento da salvação se orienta no sentido
do cumprimento deste propósito redentor. A atmosfera religiosa do
tempo, na sua maior parte, sustentou a crença na vida eterna.

 Wesley nunca duvida da sua certeza e os escritos o revelam como um tema
constante. Porque ele vê o julgamento de Deus como parte intrínseca
e inevitável da vida após a morte, a existência tem para Wesley uma
dimensão eterna sempre presente. Há uma ênfase apocalíptica na sua
pregação, embora essa não seja a sua primeira preocupação. O mesmo
é verdade nos seus escritos sobre a ressurreição geral. A sua obra
se liberta admiravelmente da tentativa de ganhar os homens para o
reino, despertando neles o temor da ira vindoura. Visto que do ponto
de vista de Wesley o mundo natural e as suas criaturas participam
dos efeitos do pecado de Adão, eles serão também redimidos no último
dia em que o amor de Deus a toda a sua criação será triunfante.

1 - Destino humano
Para que fim se concedeu a vida aos filhos dos homens? Por
que fomos enviados ao mundo? Para um único fim - o prepararmo-nos
para a eternidade. Vivemos somente para isso. Para esse fim, e
não outro, a vida nos é dada e continuada. Foi do agrado do Deus
onisciente, no tempo que Ele julgou ser melhor, levantar-se na grandeza
da sua força e criar os céus e a terra e todas as coisas que e neles
estão. Tento preparado todas as coisas para Ele, "criou o homem à
sua imagem e semelhança". E qual foi o objetivo da sua criação? Foi
um e não outro - ele conhecesse, amasse, gozasse e servisse ao seu
grande criador por toda a eternidade...
Lembrai-vos disto: nasceste para nenhuma outra coisa. Viveis
para nenhum outro fim. Tendes vida sobre a terra somente para esta
finalidade - conhecer, amar e servir a Deus na terra e gozá-lo por
toda a eternidade. Considerar isto: não fostes criados para satisfazerdes
os vossos sentidos, para gratificardes a vossa imaginação, para
ganhardes dinheiro ou o louvor dos homens, para procurardes a felicidade
em qualquer bem, em qualquer coisa debaixo do sol. Tudo
isso é "andar numa sombra vã"; é conduzir uma vida inquieta e miserável,
na direção de uma eternidade miserável. Ao contrário disso, fostes criados para procurardes
e achardes a felicidade em Deus sobre a terra, para assegurardes
a glória de Deus no céu. Que o vosso coração diga portanto: "Uma
coisa faço", tendo um objetivo em vista, lembrando-me porque nasci
e porque continuo com vida, "prossigo em direção ao alvo". Volto-
me para o único fim do meu ser - Deus; sim "Deus em Cristo reconciliado
o mundo consigo mesmo". Ele será o meu Deus para sempre
e o meu guia até a morte!
Sermões: "O que é o homem?" 13,15 (J,VII,229-30).

O único bem perfeito será o vosso último objetivo. Uma coisa
deveis desejar - conseguir aquele que é tudo em todos. Deveis procurar
a felicidade para as vossas almas - a união com aquele que as
criou; ter "comunhão com o Pai e com o Filho"; unir-se ao Senhor
em um Espírito. Deveis perseguir, até o fim dos tempos, o alvo que é
o alegrar-vos em Deus no tempo e na eternidade. Desejai as outras
coisas, desde que elas tendam para este fim. Amai a criatura, visto
que isso conduz ao Criador. Mas, em cada passo que derdes, seja
isto o ponto glorioso que anima a vossa visão. Que cada sentimento,
pensamento, palavra e obra seja subordinado a isto. Seja o que for
que desejardes ou temerdes, procurardes ou ocultardes, pensardes,
falardes ou fizerdes, fazei-o para vossa felicidade em Deus, o único
fim, a única fonte do vosso ser.
Sermões: "A circuncisão do coração", I, 12 (S, I, 273-74).

Quão verdadeiramente sábio é o cristão! Ele sabe que é um
espírito eterno que saiu de Deus e foi enviado por Ele para habitar
aqui numa casa de argila, não para fazer a sua vontade, mas a daquele
que o enviou. Conhece o mundo, o lugar em que tem de passar
alguns dias ou anos, não como um habitante, mas como um estrangeiro
e viandante na sua trajetória para as moradas eternas; assim
usa o mundo não abusando dele e sabendo que o melhor passará.
Conhece a Deus - seu Pai e seu amigo, pai de todo bem, o centro dos
espíritos de toda a carne, a única felicidade de todos os seres inteligentes.
Vê mais claro do que a luz ao meio-dia, que esta é a finalidade
do homem - glorificar aquele que o fez para si mesmo, amá-lo e
gozá-lo para sempre. Vê com igual clareza os meios para alcançar o
objetivo - gozar Deus em glória: agora, conhecer, amar, imitar a Deus
e crer em Jesus Cristo a quem Ele enviou.
Sermões: "Sobre o sermão do monte: XIII", II, 2 (5,11,29-30).

Sendo persuadidos. Os fundamentos desta persuasão são postos
no versículo seguinte: "aquele que começou uma boa obra em vós a aperfeiçoará
até o dia de Cristo". Tendo-vos justificado e começado a santificar-
vos, levará avante a sua obra, até que a torne em glória.
Notas: "Filipenses 1:6".
Não quer que a expressão "a justiça dos santos" significar as
"vestes núpcias" da parábola? É a "santidade sem a qual nenhum
homem verá ao Senhor". A justiça de Cristo é sem dúvida necessária
a todas as almas que entram na glória, mas a santidade pessoal
também o é para todos os filhos dos homens. Mas é altamente necessário
que se observe que são necessárias em aspectos diferentes.
A primeira é necessária para dar-nos o direito ao céu; a segunda,
para qualificar-nos para ele. Sem a justiça de Cristo, não teremos
direito à glória; sem a santidade; não estaremos preparados para ela.
Pela primeira, tornamo-nos membros de Cristo, filhos de Deus e
herdeiros do reino dos céus. Pela segunda, "tornamo-nos preparados
para participarmos da herança dos santos em luz".
Sermões: "Sobre as vestes núpcias", 10 (J, VII, 314).

2 - A vida eterna
"Sem santidade nenhum homem verá ao Senhor", verá o rosto
de Deus em glória. Nada sob o céu pode ser mais certo do que
isto, "pois a boca do Senhor o disse. E embora o céu e a terra passem,
a sua palavra não passará". Como não é possível Deus cair do
céu, assim a sua palavra não pode cair por terra. Ninguém viverá
com Deus senão aquele que agora vive para Deus. Ninguém gozará
da glória de Deus no céu, senão aquele que, na terra, traz a imagem
de Deus. Todo aquele que não é salvo dos pecados aqui, não poderá
ser salvo do inferno depois. nenhuma pessoa poderá ver o reino de
Deus lá em cima, a menos que o reino esteja nela aqui embaixo. Todos
os que reinarem com Cristo no céu, devem ter Cristo reinando
neles aqui na terra. Devem ter a "mente que houve em Cristo", capacitando-
os a "andarem como Cristo andou".
Obras: "Um golpe na raiz ou Cristo apunhalado na casa dos
seus amigos",
Quando o Filho do homem vier na sua glória e conceder a todos
a sua recompensa, esta será indubitavelmente proporcional 1) à
nossa santidade interior, à nossa semelhança a Deus; 2) às nossas
obras; 3) aos nossos sofrimentos. Portanto, se sofres no tempo, ganharás
indizivelmente na eternidade. Muitos dos teus sofrimentos,
talvez a maior parte deles, são passados agora. Mas a tua alegria virá!
Levanta os olhos, minha cara amiga, levanta os olhos! e vê a tua coroa
diante de ti! Mas um pouco e beberás dos rios de prazer que
jorram à mão direita de Deus para sempre.
Cartas: "A Ann Bolton" (VIII, 251).

"Aquele que que tem o Filho tem a vida" (refere-se ele à vida
eterna) e "aquele que não tem o Filho de Deus não tem esta vida". É
como se ele tivesse dito: "esta é a soma do testemunho de Deus a
respeito do seu Filho, que Deus nos deu não somente o direito, mas
o começo real da vida eterna"; e esta vida é comprada por seu Filho
e entesourada por Ele, que tem, em si mesmo, todas as fontes e toda
a plenitude da mesma para comunicá-la ao seu corpo - a Igreja.
Quando é do agrado do Pai revelar-nos o seu Filho ao coração,
então começa a vida eterna. Quando conhecemos a Cristo e somos
capacitados a chamá-lo "Senhor pelo Espírito Santo"; quando podemos
testificar, dando a nossa consciência testemunho no Espírito
Santo deste modo: "A vida que agora vivo, vivo-a pela fé no Filho
de Deus que me amou e deu-se a si mesmo por mim". E é então que
a felicidade começa, felicidade real, sólida e substancial. É então que
o céu se abre na alma, que o estado propriamente celestial se inicia,
enquanto que o amor de Deus se derrama no coração, produzindo,
 imediatamente, o amor a toda a humanidade; benevolência geral e
pura, juntamente com os seus frutos genuínos, humilde, mansidão,
paciência, contentamento em qualquer situação; uma aquiescência
inteira, completa, clara a toda vontade de Deus; tudo isso capacitando-
nos a "regozijarmo-nos sempre e em tudo darmos graças".
À medida que o nosso conhecimento dele e o nosso amor a
Ele se desenvolvem, o reino interior do céu deve desenvolver-se tam-
bém no mesmo grau e na mesma proporção, enquanto que nós "em
tudo crescemos para Ele que é o nosso cabeça". E quando somos en
autô peplêrômenoi completos nele, segundo a tradução feita pelos
nossos tradutores, mas, mais propriamente, quando somos cheios
dele; quando "Cristo em nós, a esperança da glória" é nosso Deus e
nosso tudo; quando Ele toma posse total do nosso coração; quando
ali reina sem rival, como Senhor de todos os movimentos; quando
estamos em Cristo e Cristo está em nós, somos um com Cristo e Cristo
conosco; então somos totalmente felizes; vivemos "toda a vida que
está escondida com Cristo em Deus"; só então experimentarmos propriamente
o que significa a palavra: "Deus é amor, e todo aquele
que vive em amor, vive em Deus e Deus vive nele".
Sermões: "Culto espiritual", II, 4-6 (J,VI,430-31).

Deus acrescentou desde o começo perdão, santidade e céu. Por
que abandonaria o homem tais coisas? Oh, tomai cuidado nisto! Não
deixeis que um só elo da cadeia de ouro se quebre. "Deus me perdoou
por amor de Cristo. Ele está agora me renovando segundo a
sua própria imagem. Ele logo me torna manso para si mesmo e me
toma para estar na sua presença. Eu, a quem Ele justificou através
do sangue do seu Filho, sendo totalmente santificado pelo seu Espírito,
subirei rapidamente à Nova Jerusalém - a cidade do Deus vivo.
Ainda um pouco e virei para a assembléia geral e Igreja dos primogênitos,
a Deus o juiz de todos e a Jesus o mediador da nova aliança.
Logo essas sombras desaparecerão e a aurora da eternidade brilhará
sobre mim! Cedo beberei do rio de água de vida que jorra do trono
de Deus e do cordeiro! Lá todos os seus servos o louvarão, verão o
seu rosto e o seu nome estará nas suas testas. Não haverá noite ali,
não terão necessidade de candeias nem da luz do sol, pois o Senhor
Deus os alumiará, e eles reinarão para sempre."
Sermões: "Objetivos de Satanás", II, 4 (S,II, 202-7).
Meu caro irmão, S. Paulo ensina que nós nos uniremos "aos
espíritos dos homens justos que se tornaram perfeitos", num sentido
em que não poderemos ser na terra nem mesmo no paraíso.
No paraíso, as almas dos bons descansarão dos seus trabalhos, e
estarão com Cristo, da morte até à ressurreição. Não há nenhuma
semelhança entre isto e o purgatório papal, onde os ímpios são
atormentados pelo fogo purificador até que, sendo suficientemente
purificados, tenham lugar no céu. Cremos, como o fez a Igreja
antiga, que ninguém sofrerá depois da morte, senão os que hão
de sofrer eternamente. Cremos que temos de ser salvos dos nossos
pecados aqui, capacitando-nos a amarmos a Deus de todo o
nosso coração.
Cartas: "A George Blackall" (VII, 168).

O corpo que teremos na ressurreição será imortal e incorruptível,
pois, "o corruptível deve revestir-se da incorruptibilidade
e o mortal da imortalidade". As palavras imortal e incorruptível
não só significam que não mais morreremos, pois nesse
sentido os condenados também são imortais e incorruptíveis, mas
que seremos perfeitamente libertos de todos os males corporais
que o pecado trouxe ao mundo; que os nossos corpos não mais
serão sujeitos à doença, à dor nem a qualquer outra inconveniência
a que estamos expostos diariamente. A Escritura chama a isto
"a redenção dos nossos corpos", a libertação de todas as moléstias.
Se tivéssemos de recebê-los novamente sujeitos a todas as fraquezas
e misérias com que somos forçados a lutar, duvido que
um homem sábio, se lhe fosse dado escolher, tomá-lo-ia voluntariamente
de novo; que ele não escolhesse deixá-lo apodrecer na
sepultura a ser novamente preso a esta vestimenta terrena em
ruínas. Tal ressurreição seria o que um sábio pagão chama de "ressurreição
para um outro sono". Pareceria ser mais uma ressurreição
para um nova morte do que uma ressurreição para vida...
Os nossos corpos levantar-se-ão em glória. "Então os justos
resplandecerão como o sol no reino de seu Pai". Temos uma
semelhança disto no brilho do rosto de Moisés, quando esteve
conversando com Deus no monte.
Sermões: "Sobre a ressurreição dos mortos", II, 1-2 (1, VII, 479-
80, 481).

3 - Coisas eternas
Certamente não tendes desculpa, todos vós que não conheceis
o dia da vossa visitação! o dia em que o grande Deus, que tem
sido esquecido entre nós dias sem número, se levantará imediatamente
para ser vingado dos seus adversários e visitar e redimir o
seu povo. Não estão em ação os seus juízos e a sua misericórdia?
Ainda assim não aprendeis a justiça? Não está o Senhor passando?
Já não começou um grande e forte vento "a despedaçar as montanha
e as rochas perante o Senhor?" Já não são também sentidos os terremotos?
Um fogo começou a arder na sua ira. Quem sabe qual será o
fim dessas coisas? Mas ao mesmo tempo Ele está falando a muitos
"numa voz branda e suave". Aquele que tem ouvidos para ouvir,
ouça, do contrário será repentinamente destruído, e o será irremediavelmente!
Que desculpa poderá haver possivelmente para aqueles que se
descuidam de uma ocasião como esta? Para aqueles que estão em crise,
são estúpidos, insensíveis, incompreensíveis? que não cuidam de nenhuma
dessas coisas, que não se dão ao trabalho de pensar a respeito
das mesmas e ainda são despreocupados? Pode haver um ponto sobre
que vos seja mais necessário pensar com atenção mais fria e mais profunda?
Poderá haver, enquanto durarem o céu e a terra, qualquer coisa
de tão vasta importância como o último chamado de Deus a uma terra
condenada já a perecer na sua iniqüidade?
Vós e aqueles que estão ao vosso redor mereceis, de há muito,
beber "a borra da taça da inquietação"; sim, ser "punidos com a destruição
eterna feita pela presença do Senhor e a glória do seu po-
der". Mas Ele não vos tratou de acordo com os vossos pecados nem
vos retribuiu segundo as vossas iniqüidade. Uma vez mais Ele está
misturando misericórdia ao juízo, e clamando: "Voltai-vos dos vossos
maus caminhos, pois, por que morreríeis, ó casa de Israel?" Não
estareis vós dispostos a dar-lhe ouvidos? Se não tendes o cuidado
de responder-lhe neste assunto, não fecheis os olhos ainda, não tapeis
os ouvidos e não endureçais o vosso coração obstinado. Tomai
cuidado para que Deus não ria da vossa calamidade, e não faça mofa
quando o vosso temor chegar!
Obras: "Apelo ulterior aos homens sensatos e religiosos: III",
IV, 1-2 (VIII, 239-40).

Pregando à noite em Spitalfieds sobre: "Prepara-te para encontrares
com o teu Deus", mostrei amplamente o absurdo da suposição
de que o mundo terminaria naquela noite. Mas apesar de
tudo quanto disse, muitos estavam com medo de irem deitar-se, e
alguns vagueavam pelos campos, persuadidos de que se o mundo
não acabasse naquela noite, pelo menos Londres seria engolida por
um terremoto. Deitei-me à hora costumeira e às 10 horas dormia profundamente.
Diário: "Segunda-feira, 28 de fevereiro de 1763" (V,9).

Que ninguém que vive e morre nos seus pecados tenha a esperança
vã de escapar à sua vingança. "Pois se Deus não poupou aos
anjos que pecaram, mas lançou-os ao inferno, e os entregou a prisões
de trevas reservados para o julgamento, o Senhor sabe reservar
os injustos para punição no dia do julgamento" - 2 Ped.2:4-9. Naquele
dia peculiarmente chamado "o dia do Senhor", "aqueles que
dormem no pó da terra serão acordados, uns para a vida eterna e
outros para vergonha e desprezo eternos"- Dn. 12:2. Entre os Uni-
mos estarão aqueles que, pela sua impenitência obstinada, estão "entesourando
para si mesmos ira para o dia da ira e da revelação do
justo juízo de Deus que dará indignação e ira, tribulação e angústia,
à alma de todos os homens que praticam o mal"- Rom. 2:5, 8-9. Ele
declarou a sentença que pronunciará sobre todos os que praticam a
inqüilidade: "Ide, vós malditos, para o fogo eterno preparado para o
diabo e os seus anjos"- Mat. 25:41. E naquela hora será executado
sendo "lançado nas trevas exteriores onde há choro e ranger de dentes"-
versículo 30, eles serão punidos com a separação eterna da presença
de Deus e da glória do seu poder"- 2 Tes. 1:9. Castigo não só
eterno, mas sem interrupção. Pois uma vez "lançados naquele forno
de fogo, naquele lago de fogo que arde com enxofre, o verme que
rói a sua alma não morre e o fogo que atormenta o seu corpo não se
apaga", de modo que "não têm descanso dia e noite e a fumaça do
seu tormento sobe para sempre".
Cartas: "A William Law"(III , 369-70).

Resta, agora, que não sendo mais mordomos, temos de dar
contas da nossa mordomia. Alguns imaginam que isso aconteça imediatamente
após a morte, logo que entramos para o mundo dos espíritos.
A Igreja Romana assim afirma de maneira absoluta e faz disso
um artigo de fé. E assim podemos admitir que no momento em que
a alma deixa o corpo e fica nua perante Deus, ela fica sabendo qual
será a sua porção para toda a eternidade. Terá uma visão completa,
quer do gozo quer do tormento eternos, visto que não nos será mais
possível enganarmo-nos no julgamento que fazemos de nós mesmos.
Mas a Escritura não nos dá nenhuma razão para crermos que
Deus então se assentará para julgar-nos. Não há nenhuma passagem
em todos os oráculos de Deus que afirme tal coisa. O que tem sido
citado freqüentemente em favor disso, parece mais provar o contrário,
especialmente em favor disso, parece mais provar o contrário,
especialmente Heb. 9:21: "Está ordenado aos homens morrerem uma
vez e depois o julgamento", pois, com toda razão, a expressão "uma
vez", aqui se aplica tanto ao julgamento quanto à morte. De maneira
que a conclusão certa a se tirar desse texto é não que há dois julgamentos
- um particular e outro geral, mas que temos de ser julgados
e de morrer uma vez; não uma vez imediatamente após a morte e
outra depois na ressurreição geral, mas somente "quando o Filho do
Homem vier na sua glória e todos os seus santos anjos com Ele". A
 imaginação, portanto, de que há um julgamento na morte e outro no
fim do mundo, não pode ter lugar entre aqueles que fazem da palavra
escrita de Deus a regra total e única de sua fé.
Sermões: "O bom mordomo", III, 1 (S, II, 473-74).

A mais gloriosa mudança será aquela que se operará nos pobres,
pecadores e miseráveis filhos dos homens. Estes, mais do que
qualquer outra parte da criação, caíram, em muitos sentidos, de uma
altura maior a uma profundidade maior. Mas "ouvirão uma grande
voz do céu dizendo: "Eis que o tabernáculo de Deus está com os
homens e Ele habitará com eles, eles serão o seu povo e Ele será o
seu Deus"- Apoc. 21:3. Daqui surgirá um estado puro de felicidade e
santidade muito superior àquele que Adão gozava no paraíso. Que
bela descrição faz o Apóstolo do mesmo: "Deus limpará de seus olhos
toda lágrima; não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem
dor, pois as primeiras coisas são passadas". Visto que não haverá
mais morte, dor ou doença para a sua preparação e que não haverá
mais tristeza pela separação de amigos, assim não haverá tristeza ou
choro. Mas haverá uma libertação maior do que tudo isso, pois não
haverá mais pecado. E para coroar tudo isso, haverá uma união profunda,
íntima e ininterrupta com Deus; uma comunhão constante
com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo através do Espírito; um
gozo contínuo do Deus Trino e de todas as criaturas nele!
Sermões: "A nova criação", 18 (J, VI, 295-96).
Mas permanecerá a "criatura", mesmo a criatura bruta, sempre
nesta condição deplorável? Deus nos proíbe de afirmar tal coisa;
sim, até mesmo de pensar nisso! Quando "toda a criação geme" (quer
os homens atendam ou não) os seus gemidos não são dispersos no
ar, mas entram nos ouvidos daquele que a fez. Quando as suas criaturas
"lutam com a dor", Ele conhece todo o seu sofrimento e está
conduzindo-as para mais e mais perto do nascimento que se completará
no seu devido tempo. Ele vê "a ansiosa expectativa" na qual
toda a criação animada "espera pela manifestação final dos filhos
de Deus", na qual "eles também serão libertos, não pela aniquilação,
pois esta não é libertação, dos laços presentes da corrupção para
a estrutura da gloriosa liberdade dos filhos de Deus".
Sermões: "A libertação geral", III, 1 (J, Vi, 248).

A pessoa pela qual Deus julgará o mundo é o seu unigênito
Filho, cujas "saídas são desde a eternidade" e que é "Deus sobre
todos, bendito para sempre". A Ele, "sendo o resplendor da glória
do seu Pai, a expressa imagem da sua pessoa"- Heb. 1:3, o Pai "entregou
o julgamento porque Ele é o Filho do Homem" - Jo. 5:22, 27;
porque, embora tendo "a forma de Deus, e não pensasse que fosse
roubo o ser igual a Deus, esvaziou-se a si mesmo, tomou a forma de
servo e se fez semelhante aos homens"- Filip. 2:6,7; sim, porque "estando
na forma de homem, fez-se obediente até a morte de cruz. Por
isso Deus o exaltou grandemente", mesmo na sua natureza humana
e ordenou-o, como homem, a examinar os filhos dos homens e a ser
"o juiz tanto dos vivos na sua vinda como daqueles que já tiverem
sido reunidos a seus pais.
O tempo chamado pelo profeta - "o grande e terrível dia" é
usualmente denominado nas Escrituras como o dia do Senhor. O
espaço de tempo entre a criação do homem sobre a terra e o fim de
todas as coisas, chama-se o dia dos filhos dos homens; o tempo em
que estávamos vivendo é o nosso dia dos homens; o tempo em que
estamos vivendo é o nosso dia propriamente; quando este terminar,
começará o dia do Senhor. Mas quem pode dizer quanto durará? "Para
o Senhor um dia é como mil anos e mil anos são como um dia"
2Ped. 3:8. Alguns dos antigos pais tiraram desta expressão a inferência
de que o que se chama comumente o dia do julgamento é na,
realidade, mil anos, e parece que não foram além da verdade; provavelmente
não chegaram até ela, pois se considerarmos o número de
pessoas que terão de ser julgadas e de ações a serem examinadas,
não parece que a duração de mil anos seria suficiente para os atos
daquele dia, de modo que poderá estender-se a diversos milhares de
anos. Mas Deus revelará também isto no seu devido tempo...
Quem poderá contar as pessoas a serem julgadas assim como
as gotas da chuva e a areia do mar? Disse S. João: "Vi u'a maltidão
que nenhum homem pode contar vestida com vestes brancas e com
palmas nas mãos. Quão imensa deve ser então a multidão total de
todas as nações, tribos, povos e línguas, de todos os que saíram dos
lombos de Adão desde o começo do mundo até que o tempo não
mais seja!...
Naquele dia serão descobertas todas as ações internas de toda
as almas humanas; todo apetite, toda paixão, inclinação, sentimento,
com as várias combinações dos mesmos, todo sentimento e disposição
que constituem todo o complexo caráter humano. Assim
ver-se-á clara e infalivelmente quem foi justo e quem foi injusto e
em que grau toda ação, toda pessoa, todo caráter foi bom ou mau...
Podemos considerar algumas das circunstâncias que se seguirão
ao julgamento final. A primeira é a execução da sentença pronunciada
sobre os maus e os bons: "Estes irão para o castigo eterno
e os justos para a vida eterna". Deve-se observar que é a mesma a
palavra usada na primeira e na última cláusula. Segue-se que ou o
castigo será eterno ou a recompensa também terá fim. Não, a menos
que Deus tivesse um fim e as suas misericórdias e verdade falhassem.
"Então os justos brilharão como o sol no reino do seu Pai", e
"beberão dos rios de prazer que estão à mão direita de Deus para
sempre". Mas nisso toda descrição é insuficiente e toda linguagem
humana falha! Somente aquele que é arrebatado até o terceiro céu
pode ter uma concepção exata a respeito disso. Mas mesmo esse não
pode exprimir o que viu; não é possível ao homem expressar estas
coisas.
Os ímpios e todas as pessoas que se esquecem de Deus serão
lançados no inferno. Serão "punidos com a eterna separação da presença
do Senhor e da glória do seu poder", serão "lançados ao lago
que arde com fogo e enxofre", originalmente "preparado para o diabo
e seus anjos", onde roerão as suas línguas a angústia e a dor. Eles
blasfemarão contra Deus e progredirão nisso. Ali os cachorros do
inferno - o orgulho, a malícia, a vingança, a ira, o horror e o desespero,
continuamente os devorarão. "Não têm descanso dia e noite, e a
fumaça do seu tormento sobe para sempre!" Pois "o seu verme não
morre e o fogo não apaga".
Então os céus murchar-se-ão, secar-se-ão como a pele de ovelha
e passarão com grande barulho; "fugirão da face daquele que
está assentado no trono e não se achará lugar para eles" - Apoc. 20:11.
O apóstolo Pedro nos revela o modo por que passarão: "No dia de
Deus, os céus, estando em fogo, serão dissolvidos"- 2 Ped. 3:12. Todo
esse lindo material será desmoronado por aquele elemento em fúria,
a conexão de todas as suas partes serão destruída e todos os átomos
serão separados uns dos outros. Do mesmo modo, "também a
terra e tudo que nela existe serão queimados"- versículo 10. As enormes
obras da natureza - as colinas e as montanhas eternas que têm
desafiado a fúria do tempo e permanecido imóveis durante tantos
 anos, afundar-se-ão em terrível ruína. Quanto menos,
as obras de arte, mesmo as mais duráveis, os maiores esforços da
indústria humana - túmulos, colunas, arcos de triunfo, castelos e
pirâmides, perecerá, desaparecerá como um sonho quando alguém
se desperta!...
Mais uma circunstância que seguirá ao julgamento merece a
nossa consideração séria. Diz o Apóstolo: "Aguardamos, segundo a
sua promessa, novos céus e nova terra onde habita a justiça" -2 Ped.
3:13. A promessa está na profecia de Isaías: "Eis que crio novos céus
e uma nova terra e os primeiros não mais serão lembrados" - Is. 65:17,
tão grande será a glória dos últimos! S. João viu estes nas suas visões
de Deus. Disse ele: "Vi um novo céu e uma nova terra, pois o
primeiro céu e a primeira terra passaram"- Apoc. 21:1. Somente a
justiça habitou ali, de acordo com o que ele acrescenta: "Ouvi uma
grande voz do terceiro céu dizendo: eis que o tabernáculo de Deus
está entre os homens e Ele habitará com eles, eles serão o seu povo e
o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus" - 21:3. Portanto
eles serão necessariamente felizes: "Deus enxugará toda lágrima de
seus olhos; não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem
dor de espécie alguma" - 21:4. "E ali não haverá mais maldição, mas
verão o seu rosto"- 22:3, 4. Terão acesso íntimo a Ele e a mais perfeita
semelhança com Ele. Essa é a expressão mais forte na linguagem das
Escrituras para indicar a felicidade mais perfeita. "E o seu nome estará
nas suas testas"; serão abertamente reconhecidos como propriedade
de Deus e a sua gloriosa natureza brilhará neles da maneira
mais visível. 'E não haverá ali noite, nem necessitarão de candeias,
nem da luz do sol, pois o Senhor Deus os alumia e reinarão para
sempre".
Sermões: "O grande júri", II, 1-2, 4, 7, III, 1-2, 5 (S, II, 405-9,
411-13, 415).

Um comentário:

Paulo Malhaes disse...

Gostei bastante do inicio... Fomos feitos por Deus para Deus....
Promessa Deus muito maior que coisas terrenas...
Vida aqui nada mais que sopro no meio de um furacao....
Vivamos para Deus,com Deus e por Deus....
Que em nosso coraçoes essa fe viva e eficaz seja todo tempo escrita e lembrada..

Postar um comentário