19/02/2013

Houve um homem enviado por Deus.



 Por Pastor Metodista  Leonard Ravenhill

Os céus cerrados estavam abertos! Enfim, o lamento de séculos – “Oh! se fendesses os céus” – fora ouvido e respondido de forma inusitada. Quatro longos séculos de noite espiritual foram encerrados pela presença deslumbrante de um homem mais incandescente do que o cometa Halley.

As pessoas que estiveram no Templo aquele dia e viram o sumo sacerdote em suas vestes de glória e beleza teriam dificuldade para aceitar este sujeito excêntrico e barbado, de austeridade crônica e palavras rudes, como um profeta enviado por Deus. Mas Jesus disse a respeito desse homem incomum, imprevisível e radical: “Em verdade vos digo: entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista” (Mt 11.11).
O segredo desse homem surpreendente é fácil de descobrir. Ele tinha um foco único na glória de Deus, um propósito único de fazer a vontade de Deus e uma mensagem única para anunciar e apresentar o Cristo, o ungido de Deus, como o Redentor do mundo.


A mensagem de João era justiça. Ele se sentia angustiado porque as leis de Deus estavam sendo quebradas, seu sábado desonrado, sua casa desolada. Ele não estava atacando um efeito, mas uma causa – o pecado. Ele dizia que o pecado destruiria os homens como indivíduos, arruinaria comunidades e quebraria nações. Só a justiça poderia exaltar uma nação ou um povo.

João foi bem-sucedido, por qualquer parâmetro de avaliação, como profeta. Socialmente, alcançou todas as classes, pois o povo estava farto de injustiça, maldade e opressão. Como labaredas de fogo num prédio em chamas à meia-noite, este profeta gerado no deserto atraía soldados, legiões estrangeiras, o povão e os publicanos. Ele falava uma linguagem que não conheciam, porém compreendiam. Ele falava a verdade, algo que fora perdido naquela época – e hoje também.

Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mt 3.10). João não pregava nenhum “evangelho barato”. Ele não oferecia ao penitente sorridente um “castelo no ar”, uma mansão celestial e uma coroa de glória, além de uma entrada na Festa das Bodas do Cordeiro e um galardão permanente de autoridade sobre cinco cidades, tudo em troca de um simples pedido de desculpas a Deus mais um ritual de batismo.

Hoje, se fala muito nos dons do Espírito, e realmente são maravilhosos quando autênticos. No entanto, ouvimos pouco sobre o fruto do Espírito e menos ainda sobre produzir “frutos dignos de arrependimento” (Mt 3.8).

Muitos evangelistas modernos, geralmente sujeitos bem populares, ao oferecerem perdão gratuito por ofensas graves contra um Deus santo e justo, prometem demais por um preço muito baixo. Ao falar isso, alguns nos acusam de exigir obras para obter salvação. Bem, se pregar arrependimento é exigir obras, acuse então João Batista, acuse Jesus (Lc 5.32), acuse Pedro pelo que pregou no dia de Pentecostes.

Existem tantos tipos de pregação quanto tipos de pregadores. Há pregações que edificam, mas não trazem convicção de pecado. Algumas apelam às emoções, outras ao intelecto. As pregações de Jesus, de João Batista e de Pedro atingiam a consciência e, também, a vontade. Os três tinham uma coisa em comum: a unção do Espírito Santo. 
Antes de começar seu ministério, Jesus foi ungido pelo Espírito Santo. “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar…” (Lc 4.18). Pedro foi cheio do Espírito Santo e, em seguida, ergueu sua voz e pregou ao povo (At 2). Foi registrado a respeito de João Batista algo que não foi dito de qualquer outro homem: “será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno” (Lc 1.15).
Nosso evangelho atual e decadente, com sua ênfase em felicidade, teria chocado João Batista. Tentamos induzir felicidade num coração enfermo pelo pecado. Oferecemos curativos a pacientes que precisam de uma cirurgia espiritual radical para extrair o câncer de carnalidade do coração. Pregamos para trazer paz ao coração. João Batista pregava para produzir pânico! O profeta inabalável abalava todos os outros. Visualize este quadro: João Batista, ungido pelo Espírito, preparando o caminho do Senhor, abrasava todos os corações enquanto pregava uma palavra viva e poderosa, mais afiada do que qualquer espada de dois gumes.

Soldados pagãos ouviam e descobriam que suas couraças de armadura reluzente não conseguiam impedir as flechas, com pontas de fogo do juízo de Deus, de penetrar no coração. Clamavam, aflitos, “o que faremos?” (Lc 3.14).

Depois de ver sua linhagem sanguínea de Abraão proclamada inválida para proporcionar-lhe misericórdia ou perdão, o povo clamou a João Batista: “o que faremos?” (Lc 3.10). Os ambiciosos e inescrupulosos publicanos também murcharam sob os ataques do pregador, e clamaram junto com os demais: “o que faremos?” (Lc 3.12).

Os homens que pregam nas nossas campanhas são evangelistas, não avivalistas. Um avivamento abalaria toda a situação vigente. Assim como é impossível um terremoto passar sem causar destruição, um genuíno avivamento, gerado pelo Espírito, não vem sem causar profundo transtorno moral e espiritual na Igreja e no mundo.

Com todo o nosso conhecimento e os avanços tecnológicos na agricultura, ainda não conseguimos colher uvas de espinheiros, nem figos de abrolhos. Tampouco podemos receber avivamentos do Espírito Santo em transmissões da televisão ou pela organização de cruzadas. Bebês só nascem depois de dores de parto (Is 66.8). Avivamentos são gerados por gigantes espirituais, não por gente boa de lábia nem por ministros atrás de vantagens materiais.

Quando uma senhora disse a George Whitefield: “Senhor, tenho ouvido cinco pregações suas em três dias e, cada vez, fui banhada com suas lágrimas”, ela estava revelando que o grande ganhador de almas havia chorado, ele mesmo, em favor dos perdidos no seu recanto secreto.

Lembre-se, por favor: naquela época, sem a facilidade de transportes públicos, a única maneira de chegar a um local de reunião era a pé, ou de carruagem, que poucos tinham condições de pagar, ou a cavalo. No entanto, quando a população da cidade de Boston chegava a apenas 12 mil pessoas, 14 mil vinham todas as noites para ouvir Whitefield. Não havia estradas asfaltadas, restaurantes, hotéis, ônibus ou trens. Tamanho era o magnetismo de um homem cheio do Espírito que multidões vinham para ouvi-lo e eram tocadas por Deus.

Um pregador simples, porém incomum, chamado John Smith veio logo depois de John Wesley. Ele dizia: “Estou buscando batismos mais profundos do Espírito Santo. Se nós sempre nos enchêssemos do Espírito antes de chegar à casa de Deus, veríamos muitos sinais e maravilhas”.

Lágrimas em favor dos perdidos eram o exercício diário desses avivalistas. O poderoso Jeremias disse: “Mas, se isto não ouvirdes, a minha alma chorará em segredo, por causa da vossa soberba; chorarão os meus olhos amargamente, e se desfarão em lágrimas” (Jr 13.17). O Príncipe de todos os pregadores chorou sobre Jerusalém (Lc 19.41). Arthur Fawcett disse: “O profeta é a manifestação da atividade de Deus”. A História comprova essa opinião.

Uma experiência com Deus que não custa nada não tem valor algum e não produz resultado algum. Estou convencido de que a razão por que não temos avivamentos que abalam o mundo, como antigamente, é que estamos satisfeitos sem eles! Ao examinarmos as histórias dos santos do passado, vemos que campanhas evangelísticas podem ser iniciadas e encerradas de acordo com os caprichos dos homens, enquanto avivamentos só virão com enorme custo de lágrimas, dores de parto e a misericórdia de um Deus soberano.

Estou certo de que somos ineficazes quando pregamos para os homens porque somos impotentes em suplicar em oração diante de Deus.
Conte-me, com todo o entusiasmo, sobre a pregação de Finney, como ela abalava os ouvintes e transtornava o coração de todos. A minha resposta é: “Sim, mas lembre que Nash e Clary o sustentavam em oração, vinte e quatro horas por dia, como Arão e Hur seguravam as mãos de Moisés”. Enquanto Finney suplicava aos homens em público, Nash e Clary suplicavam diante do Senhor em secreto. Resultado: avivamento! 

Que nenhum cristão deixe o coração ficar abalado por verem o inimigo entrando como inundação e por não ouvirem ainda a voz do profeta na Terra. Deus esconde os seus homens. Eles aparecerão sem etiqueta de preço, sem nada para vender, nada para divulgar a não ser a mensagem de Deus, nada para organizar, nada para promover a não ser “santidade ao Senhor”.

João Batista veio numa hora crítica na história de Israel. As almas sedentas iam atrás dele no calor do deserto. Lembremos outra vez das palavras chocantes e pungentes do Professor Harold Kuhn do Seminário Asbury: “O Cristianismo não foi servido ao mundo numa travessa de prata; nasceu num mundo sofisticado dominado por um poder totalitário”.

A Inglaterra, espiritualmente morta sob os ensinamentos do deísmo e contaminada em larga escala com a corrupção política, não ofereceu um ambiente muito propício ou receptivo para o estudante de Oxford, John Wesley. Injustiça, cobrança desigual de impostos, vícios e alcoolismo eram comuns. A essa nação corrupta na política, congelada na igreja, nos púlpitos e nos bancos, Wesley trouxe a tocha da pregação ungida pelo Espírito, e a nação se derreteu diante dele.

Os lideres e promulgadores de doutrinas falsas, com amplos fundos para espalhar suas falsas doutrinas por todo o mundo, representam maiores desafios hoje do que aqueles que foram enfrentados por Wesley ou Finney – porém não acima da capacidade de Deus. A mensagem evangelística atual oferece aos homens uma mudança de destino – mas a regeneração bíblica oferece uma nova personalidade, gerada pelo Espírito, e, só depois, um novo destino.

Avivamento é obra divina e é maravilhoso aos nossos olhos. Avivalistas com lágrimas nos olhos e corações partidos geram pecadores com lágrimas nos olhos e corações quebrantados, aos pés de um Deus santo. “Avivamento genuíno”, dizia o amado Dr. Tozer, “muda o clima moral de uma comunidade”. Homens como João Batista gravaram seus nomes em letras de fogo na história do mundo.

Outra vez, repito: o custo de chegar perto do coração de Deus, de ouvir a voz de Deus e fazer a vontade de Deus não é pequeno. Deus não pode ser apressado. A região isolada do deserto, solitário, sem recursos, atrativos ou vozes, é o lugar onde a sarça arde, onde a voz de Deus é ouvida, onde a visão é transmitida, onde o casamento com a vontade divina acontece.


Da escola de oração, do lugar no deserto, homens incendiados na fornalha da revelação e que ambicionam somente a força para fazer a perfeita vontade de Deus surgirão para abalar nações e libertar o povo. A escola de profetas nunca é muito concorrida. Não existe nenhum currículo predeterminado. Deus molda o homem de acordo com o momento na história. Um fator simples fica evidente em todos: são homens solitários, homens recolhidos, homens apaixonados, homens poderosos, homens perseguidos. Sabem que precisam sangrar para poder abençoar.

Atualmente, as nações do Ocidente estão quebradas, quebradas financeira, moral e espiritualmente. Se tivéssemos a metade da espiritualidade que achamos que temos, iríamos à casa de Deus em pano de saco com um punhado de cinzas para ungir nossas cabeças indignas. Porém, preferimos brincar de igreja. Ainda temos prazer em pregações rasas e oferecemos orações mais rasas ainda. Nosso pano de saco e cinzas seriam menos notáveis do que quando Isaías andou despido e descalço (como escravo) por três anos como sinal.

Jeremias lamentou o pecado do povo. Sua recriminação da iniquidade deles lhe custou um tempo na prisão, no tronco e no fundo de um poço de lama. Mas ele sabia que não valia a pena dizer “paz, paz”, quando não haveria paz. Só ele sabia como seria o iminente juízo de Deus sobre a nação. Precisou permanecer sozinho por causa da ira de Deus (Jr 15.17).

Que Deus nos dê homens que esperem no Senhor, que ouçam sua voz, que recebam um batismo de poder do alto e a autoridade de entregar a mensagem divina a uma igreja doente e um mundo moribundo.

Temos batalhado na carne por tempo demais. Temos interpretado o sucesso em termos de ganho material – prédios maiores para nossas igrejas, multidões maiores para nos ouvir, ofertas maiores como provas do favor divino. Há muito, temos pregadores fracos – que Deus nos dê gigantes! Tivemos muitos promotores de vendas; que o Senhor nos dê avivalistas. Temos feito o evangelismo com centenas de truques: que Deus nos dê, nesta hora escura da História humana, alguns João Batistas para arder e brilhar, alguns homens como Knox que digam: “Dá-me Escócia, ou Inglaterra, ou Brasil, senão eu morro!”


  *Leonard Ravenhill (1907-1994) foi um escritor Metodista e evangelista britânico que focalizava em assuntos como oração, santidade e avivamento. É mais conhecido por desafiar a igreja moderna.
 O seu mais notável livro é “Por que Tarda o Pleno Avivamento?”

Um comentário:

Paulo Malhaes disse...

Quando leio Rill me sinto tao inútil como cristão e ao mesmo me sinto tao impelido correr para bracos do Senhor, larga tudo e buscar a Deus e fazer sua vontade, oh Deus te amo tanto tem misericórdia de mim, preciso tanto de ti, tudo servo rill fala verdade sobre mim, misericórdia Deus

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