Por Ronaldo Lindório ( Dr. em Antropologia e missionário transcultural)
A Reforma Protestante, desencadeada com as 95 teses de Lutero e
divulgadas em 31 de outubro de 1517, foi, sobretudo, eclesiástica, em um
momento em que todos os olhares se voltavam para a reestruturação daquilo que a
Igreja cria e vivia. Renasceram, assim, os dogmas evangélicos. A Sola Scriptura
defendia uma Igreja centrada nas Escrituras, a Palavra de Deus; a Sola Gratia
reconhecia a salvação e a vida cristã fundamentadas na graça do Senhor e não
nas obras humanas; a Sola Fide evocava a fé e o compromisso de fidelidade com o
Senhor Jesus; a Solus Christus anunciava que o próprio Cristo estava
construindo sua Igreja na terra, sendo seu único Senhor; e a Soli Deo Gloria
enfatizava que a finalidade maior da Igreja era glorificar a Deus.
A missão da Igreja, sua Vox Clamantis (“a voz que clama”), não fez parte
dos temas defendidos e pregados na Reforma Protestante de forma direta. Isto
por um motivo óbvio: os reformadores, como Lutero, Calvino e Zuínglio, possuíam
em suas mãos o grande desafio para reconduzir a Igreja à Palavra de Deus e,
assim, todos os escritos foram revestidos de uma forte convicção eclesiológica
e sem preocupação imediata com a missiologia. Isto não dilui, entretanto, a
profunda ligação entre a Reforma Protestante e a obra missionária por alguns
motivos. Vejamos:
As traduções
bíblicas
A Reforma levou a Igreja a crer que o curso de sua vida e razão de
existir deveriam ser conduzidos pela Palavra de Deus, submetendo o próprio
sacerdócio a esse crivo bíblico. Foi justamente essa a ênfase escriturística
que despertou Lutero para a tradução da Palavra para a língua do povo e
inspirou, posteriormente, centenas de traduções populares em diversos idiomas,
fomentando movimentos como a Wycliffe Bible Translators, com a visão da
tradução das Escrituras para todas as línguas entre todos os povos da terra.
Hoje, contamos com a Palavra do Senhor traduzida para 2.212 línguas vivas. João
Calvino enfatizava que “onde quer que vejamos a Palavra de Deus pregada e
ouvida em toda a sua pureza [...] não há dúvida de que existe uma Igreja de
Deus”. O grande esforço missionário para a tradução bíblica resulta diretamente
dos ensinos reformados.
O culto vivo ao
Deus vivo
A Reforma reavivou o culto em que todos os salvos, e não apenas o
sacerdote, louvavam e buscavam o Senhor Deus. Lutero, em uma de suas primeiras
atitudes, colocou em linguagem comum os hinos entoados nos cultos. Essa
convicção de que é possível ao homem comum louvar a Deus incorporou na Igreja
pós-reforma o pensamento multiétnico segundo o qual “o desejo de levar o culto
a todos os homens”, como disse Zuínglio, não demorou a ressoar na Igreja,
culminando com o envio de missionários para o Ceilão pela Igreja Reformada
holandesa no século 17, que disparou um progressivo envio missionário e
expansão da fé cristã nos séculos que viriam. Um culto vivo ao Deus vivo foi um
dos pressupostos reformados que induziu a obra missionária a levar este culto a
todos os homens, transpondo barreiras linguísticas, culturais e geográficas.
Uma igreja
cristocêntrica
A Reforma trouxe a glória de Deus, como motivo de vida da Igreja e isso
definiu o curso de todo o movimento missionário pós-reforma, quando o
estandarte de Cristo, e não da Igreja, era levado com a Palavra proclamada
entre outros povos. Os morávios já testificavam isso quando o conde Zinzendorf,
ao ser questionado sobre seu real motivo para tão expressivo e sacrificial
movimento missionário, responde: “Estou indo buscar, para o Cordeiro, o
galardão do seu sacrifício”. John Knox, na segunda metade do século 16,
escreveu que a Genebra de Calvino era “a mais perfeita escola de Cristo que
jamais houve na terra desde a época dos apóstolos”. O centro das atenções,
portanto, era Cristo, e nascia ali um modelo cristocêntrico de pregação do
evangelho que marcaria o curso da história missionária nos séculos posteriores.
Mas, sobretudo, a Reforma Protestante passou a Igreja pelo crivo da
Palavra e isso revelou-nos a nossa identidade bíblica, segundo o coração de
Deus. Seguindo o esboço dessa eclesiologia reformada, podemos concluir que
somos uma comunidade chamada e salva pelo Senhor com uma finalidade na terra.
Zuínglio, logo após manifestar sua intenção de passar a pregar apenas sermões
expositivos, em janeiro de 1519, afirmou, em sua primeira prédica, que “a
salvação põe sobre nós a responsabilidade de obediência”.
Seguindo essa ênfase eclesiológica, sob o cunho escriturístico, vemos
que “igreja” (gr. ekklesia) é um termo composto que pode ser dividido em ek
(“para fora de”) e klesia, que vem de kaleo (“chamar”). Etimologicamente, pode,
portanto, ser entendida como “chamada para fora de”, o que, a princípio, nos dá
uma ideia mais real dessa comunidade dos santos que entra em um templo, mas
precisa postar seus olhos além dos muros.
Obviamente, o termo também está ligado a “agrupamento de indivíduos” e,
de certa forma, a “instituição”. Entretanto, em todo o Novo Testamento a Igreja
adquire o conceito de “comunidade dos santos”. O termo estaria ausente dos
evangelhos não fosse por sua menção em Mateus 16.18 e 18.17, mas aparece 23
vezes em Atos e mais de 100 vezes em todo o resto do Novo Testamento.
A seguir, gostaríamos de chamar a atenção do leitor para alguns
conceitos neotestamentários e reformados para esta comunidade dos filhos de
Deus que foram estudados pelos reformadores e impulsiona a Igreja hoje para uma
obra missionária baseada na Sola Scriptura, para a glória de Deus.
A Igreja de Deus
Comumente, encontramos no Novo Testamento a expressão “Igreja de Deus”
(gr. Ekklesia tou Theou), o que evidencia que esta Igreja veio de Deus e
pertence a Deus. É uma comunidade que possui Deus como fonte; é eterna,
espiritual e universal. Não provém de elucidação humana ou de uma obsessão
nutrida por um grupo de loucos há vinte séculos. Antes, foi articulada por
Deus, formada por Deus, pertence a Deus e permanece ligada a Deus. Independente
das deturpações da fé, das ramificações que se liberalizaram, dos que se
perderam pelo caminho, a Igreja permanece, pois é posse de Deus.
Dessa forma, a Igreja de Deus precisa caminhar de acordo com o palpitar
do coração de Deus, a quem pertence, traduzindo para sua vida os desejos
profundos desse coração. Baseados nesta verdade, necessitamos renovar nosso
compromisso com a eclesiologia bíblica — um grupo de santos chamado por Deus
para a inusitada tarefa de transtornar o mundo com o evangelho de Cristo.
A Igreja local
Também no Novo Testamento, encontramos o conceito de “igreja local”. Em
1Coríntios 1.12, vemos, por exemplo, a expressão a “Igreja de Deus que está em
Corinto”, em que a expressão “que está” (gr. te ouse) indica a localidade da
igreja. Mostra-nos que os santos de Corinto pertencem à Igreja e não que a
Igreja pertence a Corinto, o que deve ficar bem claro. Nos últimos 2000 anos, a
Igreja adquiriu uma forte tendência de se “localizar”, condicionando-se tão
fortemente a uma cidade ou bairro a ponto de alguns chegarem a defender uma
“demarcação” geográfica da responsabilidade da Igreja, impedindo trabalhos fora
da sua jurisdição.
Num conceito neotestamentário, igreja é uma comunidade sem fronteiras e,
portanto, cremos que há necessidade de “sacramentalizarmos” mais os santos e
menos os templos. Missões não é um programa eclesiástico. É a respiração da
Igreja.
A Igreja humana
Também dentro do conceito de igreja, encontramos, no Novo Testamento, um
perfil bastante humano. Em 1Tessalonicenses 1.1, por exemplo, lemos: “igreja de
Tessalônica” (gr. ekklesia Thesalonikeon), dando-nos a ideia daqueles que são a
Igreja, sendo, também, tessalônicos, cidadãos de Tessalônica.
Mostra-nos o fato de que, por serem “Igreja”, não significa que deixam
de ser cidadãos, patriotas, carpinteiros, lavradores, comerciantes,
desportistas, pais, mães ou filhos. A Igreja, no Novo Testamento, não é
apresentada como uma comunidade alienante, mas como uma comunidade que abrange
o homem em seu contexto humano, fazendo-nos entender que esta Igreja não foi
separada do mundo, mas, sim, purificada dentro dele. Mostra-nos, também, que,
na obra missionária, não há super-homens, mas, sim, gente como a gente tendo o
privilégio de espalhar o evangelho de Cristo além fronteiras.
No livro de Atos, a humanidade foi chocada com a fé daqueles que
“transtornavam o mundo”. O viver dos discípulos era Cristo, o objetivo era
ganhar almas, a alegria era a adoração, o que os unia era a verdadeira
comunhão, o amor era traduzido em ações, os fortes guiavam os fracos, as
dificuldades eram enfrentadas com oração, a paz enchia os corações e todos, mesmo
sem muita estrutura humana, possuíam, como finalidade de vida, apenas
testemunhar de Jesus. Era uma Igreja visionária, formada por gente limitada
como nós.
Entretanto, quando olhamos para esta Ekklesia do Senhor Jesus no
contexto embrionário do Novo Testamento, a pergunta que salta aos olhos é: qual
deve ser a principal motivação dos santos para o envolvimento com a obra
missionária mundial, fazendo Cristo conhecido entre todos os povos da terra?
Nesta expectativa, olhamos para Paulo, o qual, como missiólogo, expôs aos
romanos a nossa real motivação bíblica e reformada.
Leiamos Romanos 16.25-27, texto em que o apóstolo, encerrando esta carta
de grande profundidade missiológica, diz: “Ora, àquele que é poderoso para vos
confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a
revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto, mas que se
manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos profetas, segundo o
mandamento do Deus eterno, a todas as nações para obediência da fé; ao único
Deus, sábio, seja dada glória por Jesus Cristo para todo o sempre. Amém”.
Vejamos, mais claramente, a explicação de algumas expressões na tabela:
Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho...
fala de Deus
...conforme a revelação do mistério... o Messias prometido a todos os
povos
...mas que se manifestou agora, e se notificou pelas Escrituras dos
profetas... este é o meio de revelação escrita
...segundo o mandamento do Deus eterno...este é o meio de eleição
...para a obediência por fé...este é o meio de salvação
...entre todas as nações...isto é, a extensão do plano salvífico de Deus
Mas, qual o motivo para este plano divino que visa a redenção de todos
os povos? Ele responde no verso 27: “Ao Deus único e sábio seja dada glória!”.
Este é o maior e mais importante motivo para nos envolvermos com o propósito de
fazer Jesus conhecido até a última fronteira do país mais distante, ou da
criança caída na esquina da nossa rua: a glória de Deus!
Martinho Lutero, em um sermão expositivo, em 1513, baseado no Salmo 91,
afirmou que “a glória de Deus precede a glória da Igreja”. É momento de renovar
o nosso compromisso com as Escrituras, reconhecer que existimos como Igreja
pela graça de Deus, orar ardentemente por fidelidade de vidas e entender que o
próprio Jesus está construindo a sua Igreja na terra. E, quando colocarmos as
mãos no arado, sem olhar para trás, devemos nos lembrar o seguinte: a razão da
nossa existência é a glória do Deus. Pois, Deus é maior do que nós!
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