21/06/2012

O caráter de Deus e a predestinação




 Por Reverendo John Wesley 
(Do livro Teologia de John Wesley)

Apresentam-se então o livre arbítrio de um lado e a condenação
do outro. Vejamos qual é o plano mais defensável, se o absurdo
do livre arbítrio, como alguém pensa ser, ou se o outro com o absurdo
da condenação. Se for do agrado do Pai das luzes abrir os olhos
do nosso entendimento, vejamos qual destes contribui mais para a
glória de Deus, para a manifestação dos seus gloriosos atributos, da
sua sabedoria, justiça e misericórdia aos filhos dos homens.

Primeiramente a sua sabedoria. Se o homem for até certo ponto
livre, se pela "luz que alumia a todo aquele que vem ao mundo"
lhe forem postos diante de si a vida e a morte, o bem e o mal, então
quão gloriosamente aparece a multiforme sabedoria de Deus em toda
a economia da salvação do homem! Querendo-se que todos os homens
sejam salvos, mas não se querendo forçá-los a isso, querendo-se
que todos os homens sejam salvos, mas não como árvores ou pedras,
mas como homens, como criaturas inteligentes, dotadas de entendimento
para discernir o que é bom e de liberdade para aceitá-lo
ou recusá-lo, o esquema de todas as suas dispensações vai bem com
este seu ôrothesis seu plano, "o conselho da vontade"! O seu primeiro
passo é feito no sentido de iluminar o entendimento pelo conhecimento
geral do bem e do mal. O Senhor acrescenta a isto muitas
convicções internas as quais não há um homem sobre a terra que
não as tenha sentido freqüentemente. Outras vezes Ele, com delicadeza,
move a nossa vontade, nos impulsiona a andar na luz. Instilanos
no coração bons desejos, embora talvez não saibamos de onde
vêm. Ele procede desse modo com todos os filhos dos homens mesmo
aqueles que não têm conhecimento da sua palavra escrita. Mas
supondo-se que o homem é, até certo ponto, um agente livre, que
arranjo de sabedoria é organizado! Como cada parte deste plano convém
a este fim! Salvar o homem como homem. Colocarem-se a vida
e a morte perante ele e então, sem o forçar, persuadi-lo a escolher a
vida...
Chegamos à sua justiça. Se o homem é capaz de escolher entre
o bem e o mal, ele se torna um objeto próprio da justiça de Deus que
o absolve ou o condena, que o recompensa ou pune. Mas se ele não
é, não se torna objeto daquela. Uma simples máquina não capaz de
ser absolvida nem condenada. A justiça não pode punir uma pedra
por cair ao chão, nem, no nosso plano, um homem por cair no pecado,
ele não pode senti-la mais do que a pedra, se ele está, de antemão,
condenado... Será este homem sentenciado a ir para o fogo eterno preparado
para o diabo e os seus anjos por não fazer o que ele nunca foi
capaz de evitar? "Sim, porque é a soberana vontade de Deus". "Então,
ou temos achado um novo Deus ou temos feito um"! Este não é o Deus
dos cristãos. Nosso Deus é justo em todos os seus procedimentos; não
ceifa onde não semeou. Ele requer apenas, de acordo com o que Ele deu,
e onde ele deu pouco, pouco será pedido. A glória da sua justiça está em
recompensar a cada um segundo as suas obras. Aqui se mostra aquele
glorioso atributo evidentemente manifesto aos homens e aos anjos de
que se aceita de cada um segundo o que ele tem e não segundo o que ele
não tem. Este é aquele justo decreto que não pode passar quer no tempo
quer na eternidade...
Assim Ele gloriosamente distribui o seu amor, supondo-se que
esse amor recaia em uma dentre dez de suas criaturas, (não podia eu
dizer uma dentre cem?), e não se importe com as restantes, que as
noventa e nove condenadas pereçam sem misericórdia ; é suficiente
para Ele amar e salvar a única eleita. Mas por que tem misericórdia
apenas desta e deixa todas aquelas para a inevitável destruição? "Ele
o faz porque o quer" Ah!, que Deus concedesse sabedoria submissa
àqueles que assim falam! Pergunto: qual seria o pronunciamento da
humanidade a respeito de um homem que procedesse desse modo?
A respeito daquele que, sendo capaz de livrar milhões da morte apenas
com um sopro de sua boca, se recusasse a salvar mais do que um
dentre cem e dissesse: "Eu não faço porque não o quero"? Como
exaltarmos a misericórdia de Deus se lhe atribuímos tal procedimento?
Que estranho comentário é aquele da sua própria palavra: "A
sua misericórdia é sobre toda a sua obra!"...
A soberania de Deus aparece: 1) Em fixando desde a eternidade
aquele decreto sobre os filhos dos homens de que "aquele
que crer será salvo" e o "que não crer será condenado". 2) Em
todas as circunstâncias gerais da criação, no tempo, lugar, no
modo de criar todas as coisas, em nomear o número e as espécies
das criaturas visíveis e invisíveis. 3) Em conceder talentos naturais
aos homens,  a estes e aqueles. 4) Na disposição
do tempo, do lugar e das outras circunstâncias exteriores tais como
pais e amigos atendendo ao nascimento de cada um. 5) Na dis
pensação dos vários dons do seu Espírito para a edificação da
sua Igreja. 6) Na ordenação de todas as coisas temporais tais como
a saúde, a fortuna, os amigos, todas as coisas que carecem de eternidade.
Mas é claro que, na disposição do estado eterno dos homens,
não somente a soberania, mas a justiça, a misericórdia e a
verdade mantêm as rédeas. O governador do céu e da terra, o Eu
Sou, sobretudo o Deus bendito para sempre, com aquelas qualidades,
dirige e prepara o caminho diante da sua face.
Obras: "A predestinação calmamente considerada", 50-54
(X,232-36).
***
O Deus Todo-Poderoso e onisciente vê e conhece, de eternidade
a eternidade, tudo que é, que era e que há de ser, através de um
eterno agora. Para Ele não há passado nem futuro, mas todas as coisas
são igualmente presentes. Portanto, se falarmos de acordo com a
verdade das coisas, Ele não tem pré-conhecimento nem pós-conhecimento...
No entanto, quando nos fala, sabendo de onde fomos feitos
e a escassez do nosso entendimento, Ele desce até a nossa capacidade
e fala de si mesmo à maneira dos homens. Desse modo, em
condescendência à nossa fraqueza, fala de seu propósito, de seu conselho,
plano e pré-conhecimento. Não que Deus tenha necessidade
de conselho e de objetivos ou de planejar de antemão o seu trabalho.
Longe de nós esteja o imputar tais coisas ao Altíssimo; de medilo
por nós mesmos! É simplesmente por compaixão de nós que Ele
assim fala de si mesmo, como conhecendo de antemão as coisas no
céu e na terra, e predestinando-as ou preordenando-as.
Sermões: "Sobre a predestinação", 15 (J, VI, 230).
***
Se existe a eleição, toda a pregação é vã. É desnecessária aos
que são eleitos, pois, com ela ou sem ela eles serão infalivelmente
salvos. Portanto, o fim da pregação - salvar as almas - é destituído
de sentido em relação a eles; e é inútil àqueles que não são eleitos,
pois, possivelmente, não poderão ser salvos. Estes, quer com a pregação
ou sem ela, serão infalivelmente condenados...
Portanto é esta uma prova simples de que a doutrina da
predestinação não é uma doutrina de Deus, porque torna desnecessária
a ordenança de Deus, e Deus não está dividido contra si mesmo.
Em segundo lugar, ela tende a destruir diretamente a santidade
que é o fim de todas as ordenanças de Deus. Eu não digo que aqueles
que não a aceitam são santos, pois Deus exerce terna misericórdia
para com aqueles que estão inevitavelmente presos a qualquer
homens de erros, mas que a doutrina em si mesma de que todos os
homens são, desde a eternidade, eleitos ou não, e de que uns têm de
ser inevitavelmente salvos e outros inevitavelmente condenados, tem
uma tendência manifesta de destruir a santidade em geral porque
tira inteiramente os primeiros motivos de nós a seguirmos: a esperança
de recompensa futura e o temor do castigo, a esperança do céu
e o temor do inferno....
Em terceiro lugar, esta doutrina tende a destruir o conforto da
religião, a felicidade do cristianismo. Isto é evidente a todos aqueles
que se crêem condenados ou que apenas suspeitam ou temem sêlo.
Todas as grandes e preciosas promessas estão perdidas para eles;
elas não lhes dão nenhum vislumbre de conforto, pois eles não são
os eleitos de Deus; portanto, eles não têm parte nelas. Essa é uma
barreira efetiva à sua possibilidade de encontrar conforto e felicidade
mesmo na religião cujos caminhos devem ser de alegria e de paz...
Em quarto lugar, essa doutrina incômoda tende diretamente a
destruir o nosso zelo pelas boas obras. Ela o faz primeiramente, de
acordo com o que foi observado anteriormente, para com o nosso
amor para com a maior parte da humanidade, especialmente os maus
e os ingratos, pois tudo o que diminui o nosso amor tem que diminuir
ainda mais nosso desejo de lhes fazer bem. Ela o faz destruindo
um dos motivos mais fortes de todos os atos da misericórdia corporal
tais como dar de comer aos que têm fome, vestir os nus, etc, e
a esperança de salvar-lhes a alma. Pois que adianta suprir as necessidades
temporais daqueles que estão se mergulhando no fogo do
inferno?...
Em quinto lugar, essa doutrina não só tende a destruir a santidade
cristã, a felicidade e as boas obras, mas tem, também, uma
tendência direta e manifesta de subverter toda a revelação cristã. O
ponto que os mais sábios não crentes modernos procuram muito
striosamente provar é que a revelação cristã não é necessária.
Eles sabem bem que, se uma vez pudessem mostrar que "se a revelação
não sendo necessária não é verdadeira", a conclusão seria muito
simples para ser negada. Mas abandonemos este ponto fundamental e façamos a suposição de que aquele decreto eterno e imutável
deve salvar uma parte da humanidade e condenar a outra, mesmo
antes de existir a revelação cristã e apesar desta, que mais desejaria
o infiel? Estamos concedendo-lhe tudo o que ele pede. Desse modo
abandonamos toda a causa cristã, tornando o evangelho desnecessário
a toda sorte de homens. "Oh! não digas isso em Gade! Não publiques
isto nas ruas de Ascalom! para que as filhas dos incircuncisos
se regozijem", para que os filhos dos infiéis triunfem!
Visto que essa doutrina tende manifesta e diretamente a subverter
toda a revelação cristã, ela, também, por simples conseqüência,
faz a revelação contradizer-se. Essa interpretação baseada em
alguns textos (mais numeroso ou menos, não importa) contradiz
taxativamente a todos os outros textos e realmente a todo escopo e
teor das Escrituras...
Em sétimo lugar, é uma doutrina cheia de blasfêmia, de tal
blasfêmia que temo mencionar, mas que a honra de nosso gracioso
Deus e a causa de sua verdade não me permitem calar-me. Assim,
por amor à causa de Deus e por uma sincera preocupação pela glória
do seu grande nome, mencionarei algumas das horríveis blasfêmias
contidas nessa terrível doutrina...
Essa doutrina apresenta nosso bendito Senhor Jesus Cristo - o
Justo, o unigênito Filho do Pai, cheio de graça e verdade, como um
hipócrita, um enganador do povo, um homem destituído da sinceridade
comum, pois, não pode ser negado que Ele por toda parte fala
como querendo que todos os homens sejam salvos. Portanto, dizer
que Ele não queria que todos os homens fossem salvos, é
representá-lo como mero hipócrita e embusteiro...
O pensar em tal blasfêmia faz tinir os ouvidos de um cristão!
Mas ainda há mais, pois, assim como essa doutrina honra o Filho,
ela honra o Pai. Ela destrói todos os seus atributos imediatamente;
ela subverte a sua justiça, a misericórdia e a verdade; sim, ela representa
o mais santo Deus como pior do que o demônio, mais falso,
mais cruel e mais injusto. Mais falso porque o demônio, mentiroso
como é, nunca disse: "Ele quer que todos os homens sejam salvos",
mais injusto porque o diabo não pode ser culpado da injustiça que
se atribui a Deus quando se diz que ele condenou milhões de almas
ao fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos, e que eles não
podem evitar por falta dessa graça que ele não lhes quis dar; mais
cruel porque o espírito infeliz procura descanso e não o encontra, de
modo que a sua inquieta miséria é uma espécie de tentação para que
ele tente aos outros. Mas Deus permanece no seu alto e santo lugar,
de modo que supô-lo por seu próprio movimento, por sua pura
vontate e prazer, feliz como é, condenando as suas criaturas, quer
elas queiram quer não, a uma miséria sem fim, é imputar-lhe tal crueldade
que não podemos imputar mesmo ao maior inimigo de Deus
e dos homens. É representar o altíssimo Deus como mais cruel, mais
falso e mais injusto do que o diabo! Aquele que tem ouvidos ouça.
Sermões: "A Livre Graça", 10-11, 13, 18-20, 23-25 (J, VII, 376-383).
***
Ah! pobre predestinista! Se o Sr. é sincero para com a sua doutrina
- a eleição, ela não pode confortá-lo! Pois, quem sabe se o Sr.
não pertence ao número dos eleitos? Se não, o Sr. também está no
sumidouro. Qual é a sua esperança? Onde está o seu socorro? Deus
não representa socorro para o Sr. O seu Deus! Não, ele não é seu,
nunca foi e nunca será. Ele que o fez, o criou, não tem piedade do Sr.
Ele o fez para este fim: condená-lo; para atirá-lo de cabeça para baixo
no lago que arde com fogo e enxofre! Este foi preparado para o Sr.
desde que o mundo começou a existir! Para este o Sr. está reservado
em cadeias de trevas até que o decreto se cumpra, até que, de acordo
com a sua vontade eterna, imutável e irresistível, o Sr. gema, uive
e se contorça nas ondas de fogo e diga blasfêmias contra o seu desejo!
Ó Deus! até quando esta doutrina existirá!
Obras: "Um pensamento sobre a necessidade", VI, 6 (X,480).
***
Creio que a eleição signifique comumente uma destas duas coisas:
primeiro, um chamado divino para determinados homens para que
realizem uma obra especial no mundo. Creio que esta eleição não seja
pessoal, mas absoluta e incondicional. Deste modo, Ciro foi eleito para
reconstruir o templo, S. Paulo e os doze para pregarem o evangelho.
Mas não vejo nisto qualquer conexão necessária com a felicidade. Certamente
não existe tal conexão, pois, aquele que é eleito neste sentido
ainda poderá perder-se eternamente. "Não vos escolhi (elegi) a vós os
doze?" disse o Senhor, "contudo um de vós tem o demônio". Como vedes,
Judas foi eleito como os outros o foram, contudo a sua parte está
com o demônio e os seus anjos.
Em segundo lugar, creio que esta eleição signifique um chamado
divino a certos homens à felicidade eterna. Mas creio que esta
eleição seja condicional tanto quanto a condenação. Creio que o decreto
eterno concernente a ambas esteja expresso nestas palavras:
"Aquele que crê será salvo, aquele que não crê será condenado". Sem
dúvida, Deus não pode mudar e o homem não pode resistir a este
decreto. De acordo com isto, todos os verdadeiros crentes são chamados
eleitos nas Escrituras e os descrentes são propriamente condenados,
isto é, não aprovados por Deus e sem discernimento das
coisas espirituais.
Obras: "A predestinação calmamente considerada", 16-17
(X,209-210).
***

Um comentário:

Adriana Galanti disse...

Muito bom Fabio,gostei.

Adriana Galanti

Postar um comentário